Vítima de agressão brutal denuncia maus-tratos em delegacia da mulher em SP
Vítima de agressão denuncia delegacia em SP

Vítima de agressão brutal denuncia descaso em delegacia especializada

Uma mulher de 28 anos, vítima de uma tentativa de feminicídio na Zona Norte de São Paulo, denunciou ter sido destratada por policiais da 4ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM). Julia Andrade Abreu foi agredida por cerca de 10 minutos pelo ex-namorado Thiago Lucas de Vasconcelos, de 31 anos, dentro do carro e em um posto de gasolina no domingo (3).

Mesmo ferida e com as roupas sujas de sangue, Julia precisou esperar quase nove horas para registrar o boletim de ocorrência. “Eu dei entrada na delegacia por volta das 8h30 e fui ser atendida quase 17h. Tinha muitas moças lá também, só que eu era a única machucada. Eu estava completamente lavada de sangue. Eu tive que trocar de calça, porque como ele chutou muito minhas partes íntimas”, relatou.

Dois dias depois, ao retornar à delegacia, a vítima foi recebida por uma delegada que não se identificou. “A delegada teve a cara de pau de olhar para mim e falar: ‘já que você está com tanto medo, muda de cidade, porque quem tem medo se muda’. Para você ter uma noção, ela nem sequer apresentou o nome dela.” Em outra ocasião, ao registrar um boletim contra o então namorado, um escrivão perguntou: “o que você tá fazendo com um cara desse?”

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A Secretaria da Segurança Pública (SSP) lamentou o episódio e afirmou que a situação “não condiz com as diretrizes da instituição”. Informou ainda que os policiais foram reorientados quanto aos protocolos de atendimento a vítimas de violência doméstica e que a corregedoria está à disposição para apurar a conduta dos agentes.

Agressão brutal e tentativa de feminicídio

As agressões ocorreram na madrugada de domingo na Freguesia do Ô. Câmeras de segurança registraram parte do ataque. Julia contou que o relacionamento era abusivo, com agressões verbais, violência psicológica e controle. “O importante é que eu sobrevivi. Fisicamente estou com bastante dor no pescoço, nas costas, na perna, na costela e na parte íntima. Emocionalmente, eu não sei nem explicar. Às vezes eu acho que a qualquer momento ele vai chegar aqui, ele vai me matar”, desabafou.

No dia do crime, Julia usou o carro de Thiago para ir ao hospital, combinando de deixá-lo no Jardim Guarani. Após o atendimento, ela deu carona à sobrinha e voltou para buscá-lo. Ele estava alterado e alcoolizado. Durante o trajeto, começou a xingá-la e, ao fazer um retorno, desligou o carro e iniciou as agressões. “Ele já monta em cima de mim, e as agressões começam. Eu tento abrir a porta do carro para sair e ele bate a porta. Foram de 10 a 12 minutos de socos, tapas, mordidas, me enforcando.”

Julia conseguiu abrir a porta traseira e tentou fugir, mas foi puxada pelos cabelos. “Na hora que eu caio, ele me puxa de volta pelo cabelo e tenta ligar o carro. Eu acho que ele queria ligar o carro e ir me arrastando pelos cabelos com o carro andando. Só que ele não consegue ligar o carro, me solta, e eu levanto e corro para pista.” Ela tentou pedir ajuda a dois motoristas, mas ninguém parou. O agressor assumiu a direção e tentou atropelá-la.

Julia correu para o posto de gasolina e entrou em uma área restrita, mas foi perseguida. “As agressões chegam a ser até pior do que no carro. Ali é onde ele joga pia industrial na minha cabeça. Ele joga o bebedouro de água, e eu caio no chão. São só sequências de murro. Ele me chuta muito, muito, muito lá dentro. Vem com um pedaço de madeira e começa a me bater.” O homem tentou enforcá-la com um fio de carregador, mas ela se soltou e correu para os frentistas. Os funcionários só interviram quando foram ameaçados com um bloco de tijolo. Julia se escondeu entre uma geladeira e a parede até a chegada da polícia.

Histórico de violência e controle

Antes das agressões, o relacionamento já era marcado por violência. Thiago tinha comportamento possessivo e crises de ciúmes, especialmente quando bebia. “Quando bebia, ficava estúpido, arrogante. Qualquer coisa virava motivo de briga. Eu não podia nem olhar para os lados, porque, para ele, eu estava querendo outras pessoas”, relatou. Ele a chamava de ‘puta’, ‘vagabunda’, ‘lixo’ e dizia que ninguém nunca ia querê-la.

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Houve também agressões físicas: puxões de cabelo e cabeça pressionada contra a parede. O controle se estendia à rotina: ela só podia sair para trabalhar se estivesse acompanhada da filha dele, e até tomar banho era monitorado. “Eu só podia tomar banho depois que ele chegasse em casa. Se tomasse antes, ele dizia que era porque eu ia sair escondida. Se eu não quisesse ter relação, ele dizia que era porque eu já tinha ficado com outra pessoa.”

O término ocorreu após um episódio no aniversário do filho mais novo de Julia. Ela queria comemorar com o pai da criança e familiares, o que não foi aceito por Thiago. “Foi quando eu disse basta. Ele não aceitou que eu fosse comemorar o aniversário do meu filho com o pai dele, mesmo com outras crianças e pessoas junto.”

O caso foi registrado como violência doméstica, lesão corporal e ameaça na 4ª DDM e é investigado. Na quarta-feira (6), o agressor foi localizado e a polícia solicitou prisão temporária. A defesa dele não foi localizada.