Demolição do Bloco H22 de Niemeyer no DCTA: perda de marco da arquitetura moderna
Bloco H22 de Oscar Niemeyer é demolido no DCTA

Um marco da arquitetura moderna brasileira está sendo demolido em São José dos Campos, no interior de São Paulo. O Bloco H22, um conjunto de moradias militares projetado pelo renomado arquiteto Oscar Niemeyer na década de 1950, começou a ser derrubado dentro da área do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA).

Fachada histórica já não existe mais

Imagens registradas em dezembro e obtidas pela TV Vanguarda mostram que parte da estrutura do prédio já virou entulho. A Força Aérea Brasileira (FAB), responsável pelo DCTA, não autorizou a entrada da equipe de reportagem no local para acompanhar o processo.

Em nota oficial, a FAB justificou a demolição alegando que o edifício apresentava patologias estruturais graves, como fissuras e comprometimento da base, agravadas pela fragilização do terreno. A instituição afirmou que estudos técnicos, incluindo um relatório de 2019, concluíram pela inviabilidade técnico-econômica de recuperação ou reforma quando comparada à construção de uma nova edificação.

Especialistas lamentam a perda irreparável

A demolição é vista com pesar por arquitetos e familiares de Niemeyer. Paulo Niemeyer, bisneto do arquiteto, comparou a perda à destruição de obras de artistas como Aleijadinho. Ele defende que o bloco poderia ter sido preservado e transformado em um espaço de referência internacional, semelhante a Brasília.

“Você perde no DCTA uma chance absurda, uma oportunidade inequívoca de transformar aquilo numa referência mundial”, afirmou Paulo Niemeyer. O arquiteto Flávio Mourão, filho de um dos profissionais que assinaram o projeto, também criticou a falta de manutenção ao longo dos anos, que teria agravado os problemas. Ele ressaltou a importância de valorizar a história para construir um futuro sólido.

História conturbada e valor arquitetônico

O Bloco H22 tem uma história peculiar. O projeto foi vencido por Niemeyer em um concurso, mas seu nome foi vetado pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra por motivos políticos, já que o arquiteto era filiado ao Partido Comunista. Para viabilizar a obra, os arquitetos Fernando Saturnino de Britto e Rosendo Mourão assinaram oficialmente o projeto.

Localizado dentro do complexo do DCTA, criado em 1954, o bloco está entre as primeiras obras de Niemeyer no estado de São Paulo. Já na década de 1940, o projeto incorporava soluções avançadas de ventilação natural e conceitos de conforto ambiental, sendo um exemplar precoce da arquitetura modernista brasileira.

A FAB, em sua nota, reafirmou seu respeito ao legado de Oscar Niemeyer e seu compromisso com a preservação da memória arquitetônica, mas manteve a posição de que a demolição foi a decisão mais segura e responsável diante das condições estruturais do edifício. O processo de demolição já está em andamento.