Arquiteto italiano-brasileiro mergulha em quatro milênios de história dos labirintos em obra literária
Em uma entrevista exclusiva, o arquiteto e escritor Francesco Perrotta-Bosch compartilha os bastidores de sua pesquisa profunda que resultou no livro O Livro dos Labirintos, publicado pela Editora WMF Martins Fontes. A obra traça uma jornada fascinante através de quatro milênios, desde os labirintos mitológicos da Antiguidade até as estruturas contemporâneas como shoppings e aeroportos.
Inspiração acadêmica e mitológica
Perrotta-Bosch revela que seu interesse pelos labirintos surgiu durante o mestrado, influenciado por duas leituras cruciais. A primeira foi uma pergunta retórica do historiador da arte francês Yve-Alain Bois: "Não seria Dédalo o santo padroeiro da arquitetura?". Isso o levou a refletir sobre Dédalo como o primeiro arquiteto da humanidade e o Labirinto de Creta como o projeto inaugural da arquitetura.
A segunda inspiração veio do pensador Georges Bataille, que em seu artigo "O Labirinto", afirmou: "Basta seguir, por pouco tempo, os rastros dos repetidos circuitos das palavras para descobrir, numa visão desconcertante, a estrutura labiríntica do ser humano.". Essas ideias o convenceram a dedicar seu doutorado ao tema, culminando nesta obra que ele considera sua principal contribuição como pesquisador.
Exploração de labirintos históricos e pessoais
Entre os muitos labirintos estudados, Perrotta-Bosch destaca o da Villa Barbarigo, em Valsanzibio, Itália, como seu predileto. Este labirinto de cercas vivas, datado do século XVIII, oferece uma experiência completa de desorientação. O arquiteto realizou um trabalho minucioso de correção histórica, demonstrando que a estrutura foi encomendada por mulheres da família Barbarigo, contrariando crenças anteriores.
Ao descrever a sensação de estar dentro de um labirinto, ele enfatiza: "Estar dentro do labirinto é a experiência da desorientação. Quando estamos em um corredor do labirinto da Villa Barbarigo, por exemplo, perdem-se as referências geográficas em relação ao mundo ao redor.". Essa vivência desconecta o interior do exterior, criando uma disjunção espacial única.
Significado atemporal e contemporâneo
Perrotta-Bosch argumenta que os labirintos restituem a dimensão temporal da existência humana, frequentemente negligenciada na era da instantaneidade digital. Eles conectam-nos a épocas distantes, oferecendo histórias e mitos mais ricos do que o fluxo fugaz das redes sociais. Embora sua pesquisa tenha fornecido insights sobre a essência da arquitetura, ele admite que não há uma resposta única e definitiva, mas o labirinto revela princípios atemporais.
Sobre a evolução dos labirintos, o autor observa que hoje eles são vivenciados em shopping centers e aeroportos, mas não vê isso como uma condenação perpétua. Citando Bataille, ele afirma que o labirinto é intrínseco à condição humana e ressurgirá em novas formas, independentemente dos esforços racionalizadores. Em suas palavras: "Conscientemente ou não, nitidamente ou não, intencionalmente ou não, o labirinto emergirá seja qual for o espírito da época.".
Futuro digital e relevância histórica
Questionado sobre labirintos digitais, como a internet, Perrotta-Bosch reconhece que programadores podem criar estruturas labirínticas virtuais, mas acredita que é cedo para uma análise definitiva. Fenômenos como "The Backrooms" podem ser passageiros, e ele optou por não incluir essa dimensão em seu livro, focando em um arcabouço histórico de quatro milênios que permanecerá relevante para futuras gerações.
O livro, portanto, serve como um convite para explorar a profundidade histórica e arquitetônica dos labirintos, oferecendo uma perspectiva única sobre como essas estruturas refletem e moldam a experiência humana ao longo dos séculos.
