Cid Pitombo: Proteína animal e respeito aos 'Togos' que nos servem
Proteína animal e respeito aos animais, por Cid Pitombo

Inspirado por uma viagem ao Círculo Polar Ártico e pelo filme "Togo", o cirurgião bariátrico e pesquisador Cid Pitombo lança uma reflexão profunda sobre a intrincada e essencial relação entre humanos e animais. Em sua crônica, publicada em 15 de janeiro de 2026, ele aborda desde a importância biológica do consumo de proteína animal para o desenvolvimento intelectual até a obrigação ética de tratar com dignidade os seres que nos servem.

De Togo à nossa mesa: a jornada essencial dos animais

A experiência de conduzir um trenó puxado por huskies siberianos na Finlândia, sob uma temperatura de -35 graus Celsius, foi o ponto de partida para Pitombo. Ele se maravilhou com a "fabulosa engenharia genética" desses cães, capazes de suportar condições extremas. Essa vivência o conectou diretamente com a história real retratada no filme estrelado por Willem Dafoe, onde o cão Togo lidera uma perigosa missão para levar soro contra difteria a um povoado isolado no Alasca no século XIX, salvando vidas humanas ao custo da própria.

O autor estende a lição de Togo para além da tela. Ele argumenta que, ao longo de toda a evolução humana, os animais foram pilares fundamentais para a sobrevivência da nossa espécie. Milhões de cavalos morreram em guerras, e incontáveis outros animais nos fornecem alimento, transporte, matéria-prima para roupas, afeto e são indispensáveis para a pesquisa médica e farmacêutica, incluindo a produção de soros e vacinas.

A proteína animal no topo da pirâmide: intelecto e longevidade

Cid Pitombo faz uma defesa baseada em ciência do consumo de proteína animal. Ele relembra que a pirâmide alimentar proposta pelo governo americano foi corrigida, reposicionando a proteína animal em seu "devido lugar". Segundo sua análise, foi o aumento do consumo de proteína, a partir do momento em que nossos ancestrais aprenderam a caçar, que permitiu o crescimento do cérebro e o salto intelectual da humanidade.

"Só estou escrevendo e conduzindo um racional pensamento para escrever essa crônica graças a essa proteína", afirma. O pesquisador alerta que populações com baixa oferta proteica, especialmente na infância, podem ter o desenvolvimento intelectual comprometido. Além do intelecto, a proteína de alta qualidade, associada a vitaminas e antioxidantes – como na dieta de japoneses e povos do Mediterrâneo – é apontada como crucial para a longevidade saudável e a manutenção da massa muscular na velhice.

O consumo inevitável e a obrigação do respeito

Embora defenda a necessidade do consumo, Pitombo é enfático ao exigir uma mudança radical na forma como tratamos os animais de produção. Ele rejeita qualquer justificativa para maus-tratos, condições inadequadas de transporte e abate, tortura ou desprezo. "São animais que estão aqui para nos ajudar a sobreviver e devem ser respeitados", escreve.

A crônica expõe uma realidade frequentemente ignorada: a longa e muitas vezes cruel jornada que a proteína animal percorre antes de chegar à mesa do consumidor, inclusive no Brasil. O texto cita exemplos como a morte de golfinhos e tartarugas em redes de arrasto ilegais, frangos que perecem por calor ou sede em aviários e caminhões inadequados, e o abate criminoso de bovinos e suínos que causa dor e estresse extremo.

Cid Pitombo estabelece uma comparação poderosa e final: enquanto Togo viveu livre, foi um líder admirado e morreu por nós (salvando vidas humanas de forma heroica), milhões de animais de produção vivem confinados, sem admiração, e morrerão para nós (como fonte de alimento). A eles, que não podem correr ou se esconder, cabe aos humanos, beneficiários da "proteína da racionalidade", garantir um destino final feito com respeito e dignidade.