Morte de boto-cor-de-rosa resgatado em canal urbano de Belém gera comoção e reflexão
O boto-cor-de-rosa resgatado na última terça-feira (17) em um canal do bairro do Marco, em Belém, Pará, faleceu na madrugada desta quinta-feira (19), apesar dos intensos esforços de veterinários do Ibama e instituições parceiras. O animal, encontrado em estado crítico no Canal União, na Bacia do Tucunduba, foi atendido inicialmente no Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) em Benevides, na região metropolitana, e posteriormente transferido para o Instituto Bicho D'Água em Castanhal, onde não resistiu.
Condição grave e rápida deterioração
Desde o momento do resgate, os profissionais identificaram no cetáceo escoriações graves, baixo escore corporal (indicando desnutrição) e sinais evidentes de estresse. Encaminhado ao Cetas Benevides, o boto apresentou melhora inicial durante a tarde de quarta-feira (18), alimentando-se e demonstrando atividade. Contudo, o quadro se agravou rapidamente durante a noite, culminando no óbito por volta das 4 horas da manhã no centro especializado em Castanhal.
Projeto de monitoramento e licenciamento ambiental
O atendimento ao boto-cor-de-rosa integra o Projeto de Caracterização e Monitoramento de Cetáceos das Bacias Pará-Maranhão e Foz do Amazonas. Esta iniciativa é uma exigência do licenciamento ambiental federal conduzido pelo Ibama para atividades da empresa TGS na Margem Equatorial. Em nota oficial, tanto o Ibama quanto o Instituto Bicho D'Água enfatizaram que "empregaram todos os esforços em prol da recuperação do boto resgatado e lamentam profundamente a morte do animal".
Fatores ambientais e urbanização desordenada
Especialistas acreditam que o animal pode ter sido arrastado até o canal urbano pelas chuvas intensas e maré alta que atingiram a região. Segundo Leonel Ferreira, educador ambiental do Instituto Biologia e Conservação de Mamíferos Aquáticos da Amazônia (BioMA), o boto provavelmente ficou desorientado pela força das águas. "Ele deve ter ficado desnorteado e acabou sendo levado pela correnteza", explicou.
A presença inédita do cetáceo em área urbana chamou atenção e levantou questões sobre a transformação dos cursos d'água ao longo do tempo. A área onde o boto foi encontrado faz parte da bacia do rio Tucunduba, que originalmente era um rio. "Com o crescimento desordenado e a urbanização, esses espaços foram sendo modificados e, muitas vezes, completamente concretados. Isso altera a dinâmica natural e afeta diretamente a fauna", afirmou Ferreira.
Mudanças climáticas e invasão de habitats
Além do avanço das áreas urbanas, o especialista não descarta a relação com as mudanças climáticas globais. "As mudanças climáticas influenciam na forma como esses animais se comportam. Fora o fato de nós estarmos avançando cada vez mais nos espaços deles, então isso pode ocorrer mais vezes", alertou. Esta situação destaca a crescente pressão sobre os habitats naturais na região amazônica.
Colaboração da população foi fundamental
O resgate contou com apoio essencial de moradores locais, que acionaram os órgãos responsáveis e evitaram qualquer tipo de agressão ao animal. Segundo os especialistas, este comportamento foi crucial para a operação, já que o estresse pode ser fatal para a espécie. "A população colaborou desde o início. Esse tipo de atitude é essencial, porque são animais muito sensíveis", destacou Ferreira.
A operação envolveu múltiplas instituições:
- Corpo de Bombeiros, que isolou a área
- Instituto Biologia e Conservação de Mamíferos Aquáticos da Amazônia (BioMA)
- Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra)
- Veterinários e biólogos especializados
Os profissionais realizaram um resgate considerado delicado, retirando o animal do canal e transportando-o inicialmente para a Ufra antes dos encaminhamentos subsequentes.
Orientações para a população
Especialistas reforçam que, ao encontrar animais silvestres em áreas urbanas, a recomendação é não se aproximar nem tentar capturar. O Ibama orienta a população a denunciar avistamentos de fauna em risco através do telefone 0800 61 8080. Esta medida protege tanto os animais quanto as pessoas, evitando situações de risco e permitindo que profissionais qualificados realizem os resgates adequadamente.
A morte do boto-cor-de-rosa em Belém serve como alerta sobre os impactos da urbanização desordenada e das mudanças ambientais sobre a fauna amazônica, gerando um importante debate sobre conservação e coexistência em áreas urbanas.



