Três famílias estrangeiras foram resgatadas de uma situação análoga à escravidão em uma fazenda localizada em Céu Azul, no Oeste do Paraná. As vítimas, de origem paraguaia e argentina, relataram um sistema de dívidas utilizado pelos proprietários para impedir que os trabalhadores deixassem o local. O caso foi investigado pela Polícia Federal (PF), com apoio de auditores fiscais do Ministério do Trabalho e do Ministério Público do Trabalho. Os proprietários da área foram presos em flagrante durante a operação realizada nesta quarta-feira (13). Os nomes dos suspeitos não foram divulgados.
Condições de trabalho degradantes
Uma das vítimas contou que trabalhava sem folga para conseguir alimentação para a família. As jornadas eram exaustivas e a alimentação era escassa. Ao todo, 11 pessoas foram resgatadas, incluindo cinco crianças. “Eu me sinto mal, porque às vezes estava muito cansada. Saía do trabalho às nove da noite, e no outro dia levantava cedo de novo. Mas a gente tinha que trabalhar para ter comida. Porque devia R$ 8,5 mil para a patroa. E ela dizia que, se não trabalhar, não tem comida”, relatou.
Investigação e resgate
A investigação começou após denúncias encaminhadas pela rede municipal de proteção, que apontavam possíveis violações contra trabalhadores estrangeiros na propriedade rural. Após serem ouvidas, as famílias foram encaminhadas para acolhimento e assistência das autoridades paraguaias e argentinas.
Esquema de servidão por dívida
Uma das vítimas explicou que ela e sua família atravessaram a fronteira entre Argentina e Brasil em busca de melhores condições de vida para os filhos no Paraná. Eles saíram do país com o emprego garantido na fazenda, mas ao chegar, foram informados pelos empregadores de que haviam contraído uma dívida relacionada aos custos da viagem e que não receberiam salários até que todo o valor fosse quitado. “Nunca recebemos dinheiro. A única coisa que eles pagaram foi o táxi que nos trouxe da Argentina. Pagaram R$ 1.250 reais no táxi, depois nos cobraram e nunca mais recebemos dinheiro. Às vezes, pedíamos para a escola dos meninos, que se pagasse cada mês pelo menos R$ 10 reais ou R$ 20 reais, mas nada”, disse.
Segundo a Polícia Federal, os proprietários revendiam produtos para as vítimas por preços superfaturados, aumentando a dívida. Este sistema é conhecido como servidão por dívida. “Tudo nos descontavam dos salários, tudo tínhamos que pagar. Eram muitas horas de trabalho com chuva e frio”, contou.
Condições precárias de moradia
Além das condições exaustivas de trabalho, os policiais encontraram as famílias vivendo em estruturas precárias de madeira. Algumas famílias viviam no local há meses, outras haviam chegado há algumas semanas.
Vigilância constante
De acordo com a PF, os trabalhadores tinham a liberdade restrita por meio de câmeras de vigilância instaladas na propriedade. Uma vítima relatou que, durante os oito meses em que permaneceu no local, não teve permissão para sair nenhuma vez. Apenas as crianças saíam diariamente para ir à escola. “Durante os oito meses que estive lá não me deixaram sair. Nós dávamos uma lista das mercadorias que precisávamos para casa e eles compravam no mercado. A gente tinha que trabalhar, não podia sair”, conta.



