"Estou de pé, sempre de pé": A reconstrução de Gisèle Pelicot após década de violência sexual
A francesa Gisèle Pelicot vivia uma vida aparentemente comum no sul da França, completamente anônima, até que sua história chocou o mundo inteiro. Durante uma década inteira, ela foi sistematicamente dopada e violentada sexualmente, com o mentor dos crimes sendo ninguém menos que seu próprio marido, Dominique Pelicot.
Uma traição inimaginável
Dominique misturava sedativos na comida da esposa, convidava desconhecidos para o quarto do casal e filmava todos os abusos cometidos contra Gisèle. Em dezembro de 2024, após um longo processo judicial, ele foi finalmente condenado a 20 anos de prisão — a pena máxima para estupro na França.
Agora, pouco mais de um ano após a sentença histórica, Gisèle decidiu romper o silêncio e contar sua história em detalhes profundos. Seu objetivo é claro: garantir que a vergonha não recaia sobre a vítima, mas sim sobre os agressores.
"Esse lado sombrio, nós nunca o vimos. Eu nunca descobri, até que aprendi a fazer isso", afirmou Gisèle em entrevista exclusiva ao programa Fantástico, demonstrando a complexidade emocional de sua jornada.
O mundo desaba em 2 de novembro de 2020
O universo de Gisèle virou completamente de cabeça para baixo quando foi chamada a uma delegacia francesa. O interrogatório começou de forma estranha, com perguntas aparentemente inocentes sobre a rotina do casal. Na época, ela descrevia Dominique como um "homem atencioso" com quem vivia há impressionantes 50 anos.
O delegado responsável pelo caso — que confessou ter passado oito noites sem dormir antes de revelar a verdade — apresentou então fotografias chocantes: uma mulher dormindo sendo abusada sexualmente por homens desconhecidos.
"O delegado me diz: 'é você', e eu respondo: 'não, não sou eu'. Coloco meus óculos pra tentar compreender e ele me pergunta: ‘a senhora conhece esse homem?’. 'Claro que não'. Nesse momento, meu cérebro já não processa mais nada. Eu me desconecto, não escuto mais nada", relatou Gisèle sobre o momento traumático da descoberta.
O desafio de contar aos filhos
Após a revelação devastadora, o maior desafio enfrentado por Gisèle foi comunicar a traição inimaginável aos três filhos do casal. Ela descreve essa conversa como o momento mais violento de sua vida como mãe.
"Como você diz pros seus filhos: seu pai me estuprou e me fez ser estuprada por 10 anos? Foi um golpe devastador para eles também. Eu ainda consigo ouvir minha filha gritando na sala", recordou com dor visível em sua voz.
Agressores eram "homens comuns" e vizinhos
A investigação revelou que Dominique recrutava os agressores através de fóruns online especializados. Durante dois anos e meio de investigações minuciosas, a polícia francesa chegou ao número assustador de 80 agressores diferentes.
Eram homens entre 22 e 70 anos, considerados "comuns" na região de Mazan, no sul da França. Gisèle contou com angústia que um deles era inclusive um vizinho que ela via com frequência no cotidiano.
"Ele era um homem na casa dos quarenta, pai de quatro filhos. Mesmo assim, veio à minha casa e me estuprou. E eu, que não me lembrava de nada, respondia 'olá senhor' na padaria", revelou sobre a dupla violência do abuso e da convivência forçada.
Ao todo, 50 homens foram julgados no Tribunal de Avignon e devidamente condenados pelos crimes. Porém, Gisèle alerta com preocupação: "Trinta deles ainda estão vagando por aí, não foram presos até hoje".
Sinais ignorados e saúde em declínio
Durante o período em que era sistematicamente dopada, Gisèle sentia claramente que sua saúde estava falhando, mas não conseguia identificar o motivo preciso. Ela sofria com frequentes apagões de memória e chegou a sofrer um grave acidente de carro sem compreender as causas.
"Não lembrava o que tinha feito na véspera... Meus filhos diziam que eu estava com a voz enrolada, como se tivesse bebido", descreveu sobre os sintomas preocupantes.
Ela procurou diversos especialistas — neurologistas e ginecologistas — mas Dominique participava de todas as consultas médicas e minimizava sistematicamente os sintomas da esposa: "Tá vendo, tá tudo bem, não precisa preocupar as crianças com isso".
A punição dupla das vítimas
No tribunal, Gisèle fez uma escolha corajosa: abriu mão do anonimato e permitiu que todas as audiências fossem públicas. Essa decisão a expôs à hostilidade direta das defesas dos réus durante o processo.
"Diziam: você é cúmplice, consentiu. Esse comportamento das advogadas mulheres me humilhou profundamente. Para nós, vítimas, a punição é dupla: o sofrimento atroz que passamos e a luta constante contra essa vergonha imposta", denunciou sobre a revitimização no sistema judicial.
Reconstrução e mensagem para a sociedade
Hoje, Gisèle usa sua voz recém-encontrada para pedir mudanças estruturais na educação e no comportamento masculino em toda a sociedade: "A sociedade precisa evoluir urgentemente. Os homens precisam assumir a responsabilidade por suas ações... Não devemos tolerar mais nenhuma forma de dominação sobre as mulheres".
Apesar do trauma profundo, ela mantém deliberadamente o sobrenome Pelicot por uma razão poderosa: para que seus netos não carreguem nenhuma vergonha associada ao nome familiar. Surpreendentemente, ela planeja inclusive visitar o ex-marido na cadeia em um futuro próximo.
"Preciso olhar nos olhos dele e perguntar por quê. Preciso de respostas, mesmo que dolorosas", explicou sobre sua necessidade de fechamento.
Questionada se ter essas respostas mudaria algo em sua vida atual, ela foi enfática: "Talvez elas não mudem nada concretamente, mas é assim que sigo em frente com a minha vida. Quero dizer a ele que sou uma mulher feliz, em paz e serena hoje. O livro que escrevi é uma forma de declarar que hoje sou uma mulher livre novamente, que ama novamente, que confia novamente. E que estou de pé, sempre de pé".
A história de Gisèle Pelicot não é apenas um relato de violência extrema, mas um testemunho poderoso de resiliência humana, reconstrução pessoal e coragem inabalável diante do trauma mais profundo.



