Um ano do feminicídio que chocou Campo Grande: caso Vanessa Ricarte ainda aguarda julgamento
Nesta quarta-feira (12), completa-se exatamente um ano desde que a jornalista Vanessa Ricarte, de 42 anos, foi vítima de um brutal feminicídio em Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul. Assassinada a facadas pelo ex-noivo, o músico Caio Nascimento, ela se transformou em um símbolo nacional da luta por um acolhimento mais eficaz às vítimas de violência doméstica. Apesar da enorme repercussão do caso e da comoção pública, o réu ainda não foi julgado, e o processo criminal segue sem uma data definida para o Tribunal do Júri.
O crime que poderia ter sido evitado
Vanessa Ricarte foi morta com três facadas dentro da própria casa, localizada no bairro São Francisco, em Campo Grande. A tragédia ganha contornos ainda mais dolorosos ao se considerar que, no mesmo dia do crime, a jornalista havia procurado a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) para formalizar uma denúncia contra o ex-companheiro e solicitar uma medida protetiva de urgência. Dias após o assassinato, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) apresentou denúncia contra Caio Nascimento pela prática de feminicídio. Em 19 de março de 2025, o juiz Carlos Alberto de Almeida Garcete, da 1ª Vara do Tribunal do Júri, aceitou a denúncia, dando início à fase processual.
Os motivos da lentidão processual
Em nota oficial, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) informou que o processo corre sob sigilo judicial e que a demora na conclusão se deve, principalmente, à quantidade expressiva de recursos e questionamentos apresentados pelas partes ao longo do último ano. O tribunal detalhou que, desde o recebimento da denúncia, o caso passou por diversas etapas legais obrigatórias, como a apresentação da defesa, a realização de audiências e a análise minuciosa de todos os pedidos formulados.
O juiz Carlos Alberto Garcete ressaltou que, em regra, os processos de feminicídio possuem prioridade legal e costumam ter um andamento mais célere. No entanto, ele afirmou que o caso de Vanessa Ricarte tornou-se uma exceção devido ao volume incomum de recursos interpostos, os quais precisaram ser analisados tanto pela primeira instância quanto pelo próprio tribunal. Atualmente, o processo ainda se encontra na fase de instrução. Uma audiência crucial está marcada para o dia 9 de março, a partir das 14h, quando juiz, defesa e acusação vão ouvir o depoimento de uma vítima e proceder ao interrogatório de Caio Nascimento. A data para o julgamento definitivo pelo Tribunal do Júri permanece indefinida.
A dor permanente da família e a cobrança por justiça
Para a família de Vanessa Ricarte, o luto é uma experiência diária e avassaladora. Walker Ricarte, irmão da jornalista, desabafou sobre a perda irreparável. "Todos os dias é como se fosse o primeiro dia. Isso é uma coisa que vai ficar marcada para sempre na gente", declarou. Ele afirmou que a ausência de Vanessa deixou um vazio profundo na estrutura familiar e que a rotina jamais será a mesma.
Walker também criticou veementemente a lentidão do processo judicial. Segundo ele, a família esperava uma resposta mais rápida da Justiça. "Está fazendo um ano que nós perdemos ela e, até hoje, o caso não teve julgamento, o criminoso ainda não foi ouvido", lamentou. Ele defende, de forma incisiva, maior celeridade nos processos de feminicídio e a aplicação de punições mais rigorosas aos culpados, como uma forma de desencorajar novos crimes e oferecer algum consolo às famílias das vítimas.
Um caso emblemático que reacendeu debates urgentes
A morte brutal de Vanessa Ricarte gerou uma onda de protestos em todo o país e reacendeu, com força total, o debate público sobre a eficácia do atendimento prestado às vítimas de violência doméstica. Áudios divulgados após o crime mostraram que a própria jornalista relatou dificuldades e uma sensação de descaso durante o atendimento recebido na delegacia. O caso mobilizou diversas autoridades políticas e entidades de defesa dos direitos das mulheres, que passaram a cobrar reformas estruturais no sistema de proteção.
Para a família e para os movimentos sociais, no entanto, a principal e mais imediata resposta ainda está por vir: a condenação do réu. Com a audiência marcada para março, o processo avança para sua fase final, que precederá a decisão sobre o envio do caso a julgamento pelo Tribunal do Júri. "É julgar e condenar. E que a pessoa cumpra a pena dela para que a gente tenha um pouco mais de sentimento de justiça", concluiu Walker Ricarte, ecoando o anseio de milhares de pessoas que acompanham este triste capítulo da violência contra a mulher no Brasil.



