Há exatos três meses, Silvana de Aguiar, de 48 anos, desaparecia em Cachoeirinha, na Região Metropolitana de Porto Alegre, e nunca mais foi vista. A Polícia Civil do Rio Grande do Sul concluiu que ela foi morta na noite de 24 de janeiro. O ex-marido, o policial militar Cristiano Domingues Francisco, está preso como principal suspeito. No dia seguinte, 25 de janeiro, os pais dela, Isail Vieira de Aguiar, de 69 anos, e Dalmira Germann de Aguiar, de 70, também desapareceram. A polícia considera que ambos estejam mortos, embora os corpos não tenham sido encontrados.
Investigação de 20 mil páginas
Um inquérito policial de 20 mil páginas, com depoimentos, diligências, relatórios, extrações e quebras de sigilo, além da análise de cerca de 10 terabytes de dados, permitiu à polícia reconstruir o final de semana do desaparecimento da família Aguiar.
No sábado, 24 de janeiro, às 20h33, uma câmera de videomonitoramento flagrou um Volkswagen Fox vermelho entrando na casa de Silvana. Naquele momento, o celular de Cristiano se conectou à rede wi-fi dela. O veículo saiu oito minutos depois, às 20h41. Esse carro é considerado peça central nas investigações, embora nunca tenha sido encontrado. A polícia localizou fotos de Cristiano com o Fox e concluiu que ele foi usado nos crimes.
Às 21h28, um Ford Ka branco, registrado em nome de Silvana, entrou no local. A polícia acredita que era Silvana chegando em casa. O celular dela se conectou ao wi-fi. Às 23h32, o Fox vermelho, supostamente dirigido por Cristiano, retornou e estacionou no pátio. Os celulares de ambos estavam conectados ao wi-fi, indicando que estavam juntos. Segundo o inquérito, Silvana teria sido morta na residência. O Fox saiu às 23h45, e os celulares se desconectaram.
Na madrugada, por volta de 2h40, foi criado um ponto de acesso de dados móveis no celular de Silvana. O aparelho de Cristiano se conectou a esse compartilhamento de internet, cuja senha era “Megera77”. Investigações revelaram que esse termo era usado por Cristiano e sua atual esposa para se referir a Silvana em conversas privadas. O Fox vermelho retornou à casa às 3h19 e saiu três minutos depois.
Áudios gerados por inteligência artificial
No domingo, 25 de janeiro, por volta das 7h, o celular de Silvana estava em uma localização compatível com a casa de Cristiano. Próximo a esse horário, uma postagem na rede social de Silvana afirmava que ela havia viajado para a Serra Gaúcha e sofrido um acidente. Entre 10h e 11h, os celulares de Silvana e Cristiano se deslocaram para uma região entre Cachoeirinha e Gravataí, onde câmeras flagraram Cristiano fazendo compras em um supermercado. Silvana não foi vista.
O falso acidente na Serra foi o tema do primeiro áudio gerado por inteligência artificial simulando a voz de Silvana, direcionado aos pais dela: “Mãe, eu me acidentei no carro de uma amiga. Eu fui dar uma volta com ela e capotou o carro. Estamos no hospital.” Essa ligação ocorreu às 11h33, quando a polícia concluiu que ambos os celulares estavam com Cristiano.
Após a ligação, Isail e Dalmira começaram a buscar informações sobre Silvana. Às 12h22, Isail foi à 2ª Delegacia de Polícia de Cachoeirinha, que estava fechada. Eles encontraram uma guarnição policial e relataram o possível acidente. Os policiais não encontraram registro de acidente na Serra. Isail teria dito que desconfiava do ex-genro.
Por volta de 14h30, o celular de Cristiano fez uma ligação para o telefone fixo do comércio da família Aguiar. Novamente, a voz de Silvana foi simulada: “Oi mãe, oi pai, é a Silvana, cheguei bem em casa, mas dei um probleminha aqui em casa, um fio de luz entrou em curto aqui na sala de casa e quase pegou fogo, pede para o pai vir aqui em casa me dar uma ajuda, será que o pai consegue vir aqui me dar uma ajuda rapidinho?”
Às 16h28, câmeras captaram Cristiano e Isail chegando à casa de Silvana. Eles foram até a caixa de luz. Às 16h48, Cristiano saiu sozinho. Perícias encontraram amostras de sangue de Silvana e de Isail na residência. Um terceiro áudio falso foi direcionado à mãe: “O pai não conseguiu resolver aqui. Daí o Cristiano vai arrumar. Eu liguei para ele. Pois foi ele quem tinha feito essa elétrica. Daí ele vai pegar uns fios de luz que tem sobrando na peça das ferramentas. O pai explicou pra ele onde tá. Daí o Cristiano tá indo aí agora pra pegar. Pode alcançar pra ele que ele tá ajudando nós. Pode ficar tranquila que ele tá indo aí.”
A polícia encontrou um notebook na casa de Cristiano usado para acessar um software de clonagem de voz. No celular dele, havia um bloco de notas com as frases construídas. O inquérito aponta que o suspeito usou o software para atrair Isail à casa de Silvana e depois convencer Dalmira a recebê-lo na casa do casal, onde ela estava sozinha. Na madrugada de 26 de janeiro, o Fox vermelho retornou à casa de Silvana e ficou até as 3h47. Depois disso, Silvana, Isail e Dalmira nunca mais foram vistos.
A reportagem consultou duas ferramentas de detecção de IA, a Hiya Deepfake Voice Detector e a undetectable.AI, que concluíram ser altamente provável que os áudios foram gerados por inteligência artificial.
Indiciamentos
A investigação indiciou seis pessoas por nove crimes diferentes. Cristiano Domingues Francisco foi indiciado por feminicídio contra Silvana, duplo homicídio triplamente qualificado contra Isail e Dalmira, ocultação de cadáver, abandono de incapaz, falsidade ideológica, furto qualificado, fraude processual, falso testemunho e associação criminosa.
Milena Ruppenthal Domingues, atual esposa de Cristiano, foi indiciada por ocultação de cadáver, furto qualificado, falso testemunho, fraude processual e associação criminosa. Segundo o delegado Diego Traesel, ela participou do pós-crime, manipulando dados e depoimentos, e teria descredenciado o software de clonagem de voz após a prisão de Cristiano.
Wagner Domingues Francisco, irmão de Cristiano, foi indiciado por ocultação de cadáver, fraude processual e associação criminosa. Seu DNA foi encontrado junto ao telefone da vítima, e ele teria ajudado a destruir provas, recolhendo HDs de câmeras.
Paulo da Silva, amigo de Cristiano, foi indiciado por falso testemunho, fraude processual e associação criminosa. Ele teria apagado conteúdos e mentido em depoimento.
Maria Rosane Domingues Francisco, mãe de Cristiano, foi indiciada por fraude processual e associação criminosa, por ter retirado HDs de sua casa e manipulado mensagens.
Ivone Ruppenthal, sogra de Cristiano, foi indiciada por fraude processual e associação criminosa, por participar da ação coordenada de apagar vestígios.
Defesas
A defesa de Cristiano afirmou que aguarda o encaminhamento do inquérito para ter acesso amplo aos procedimentos. A defesa de Milena, Paulo, Maria Rosane e Ivone declarou que a inocência será demonstrada no processo, apontando irregularidades na investigação. A defesa de Wagner também questionou o acesso aos autos e reafirmou sua inocência.



