Pai é preso em Goiás após sequestrar filho em Araçatuba por mais de dois anos
Um homem foi preso na quarta-feira (25) em uma pousada de Goiânia, capital de Goiás, suspeito de sequestrar e manter em cárcere privado o próprio filho, de nove anos de idade, por um período superior a dois anos. A criança, que havia sido levada de Araçatuba, no interior de São Paulo, em 2023, foi finalmente resgatada e pôde reencontrar a mãe após longo desaparecimento.
Acusações falsas e motivação do crime
O pai preso acusou a mãe da criança de provocar uma queimadura de segundo grau no menino, alegando que isso seria uma tentativa de obter a guarda unilateral. Em entrevista ao g1, a mãe, que não será identificada para preservar a identidade do filho, negou veementemente as acusações. Ela explicou que a suposta queimadura era, na verdade, uma tatuagem de henna aplicada durante as férias da família em Porto Seguro, na Bahia, em 2023.
"Ele me acusou de agressão para conseguir a guarda, mas ele não conseguiu. O meu filho saiu da minha casa sem queimadura nenhuma", afirmou a mãe, ressaltando que atualmente detém a guarda unilateral tanto na esfera cível quanto criminal.
Desaparecimento e busca judicial
O sequestro ocorreu em dezembro de 2023, quando o pai pegou o menino com o compromisso de devolvê-lo em 8 de janeiro, mas não cumpriu a promessa. Em vez disso, registrou um boletim de ocorrência alegando que a mãe era a agressora. Na época, a guarda havia sido judicialmente definida como compartilhada, com moradia fixa com a mãe e visitas livres ao pai.
"Resolvemos guarda compartilhada, moradia comigo e visitas livres. O pai tinha todo acesso, não tinha nenhum impedimento de poder participar da rotina", detalhou a mãe, que acredita que o crime foi motivado pela dificuldade do ex-companheiro em aceitar o fim do relacionamento.
Com a recusa em devolver a criança, a mãe procurou o Conselho Tutelar e ingressou com processo na Justiça, obtendo decisão favorável que, no entanto, não foi cumprida pelo pai. Ao longo de dois anos, foram movidas ações nas esferas cível e criminal, incluindo pedido de cumprimento de guarda, denúncia por sequestro e investigação por alienação parental.
Impacto emocional e isolamento da criança
A mãe descreveu o período como profundamente angustiante: "Foi muito angustiante, desenvolvi crise de ansiedade, foi muito difícil para mim a rotina. Fiquei muito tempo afastada do meu trabalho por conta de crises que eu não conseguia nem conversar, só queria dormir".
De acordo com o delegado Paulo Natal, responsável pelo caso em Araçatuba, a investigação apontou que o pai retirou o filho da guarda materna sem consentimento e sem autorização judicial, interrompendo completamente o contato da criança com a mãe e familiares. Durante o período de cativeiro, o menino não frequentou a escola e era constantemente deslocado de cidade para dificultar sua localização.
"A vida social da criança foi ceifada, porque não frequentava a escola, não tinha amigos. Em razão disso tudo, ele falou que ele alfabetizou o filho, ele fazia ele ler a bíblia e copiar Salmos. Não frequentava lugar nenhum. E ficava seis meses em cada lugar, para evitar que a polícia localizasse", explicou o delegado.
Operação policial e reclassificação do crime
A prisão ocorreu após um trabalho de inteligência da polícia, com dois agentes civis de São Paulo se hospedando à paisana na pousada onde o suspeito estava. Inicialmente tratado como subtração de incapaz, o caso foi reclassificado para cárcere privado diante da gravidade das provas reunidas contra o homem.
Com o resgate, a mãe informou que o filho deve retomar os estudos no mesmo ano escolar em que parou - o segundo ano do ensino fundamental - e passará por acompanhamento psicológico para lidar com as consequências do longo período de isolamento.
O nome do homem não será divulgado para preservar a identidade da criança, que agora inicia um processo de recuperação e reintegração familiar após mais de dois anos afastado da mãe e do convívio social normal para sua idade.



