Mãe e filho resgatados de cárcere privado em Araras após adolescente de 13 anos pedir socorro por celular
Cárcere privado em Araras: mãe e filho resgatados após anos de isolamento

Mãe e filho viviam em cárcere privado há anos em Araras, interior de São Paulo

Uma situação de extrema violência e isolamento foi descoberta no último sábado (7) em Araras, cidade do interior paulista. Uma mulher de 42 anos e seu filho adolescente de 13 anos foram resgatados de um cárcere privado após o garoto conseguir acesso a um celular e pedir socorro à família. O marido e pai, João Batista de Pallace, de 56 anos, foi preso em flagrante pela Guarda Civil Municipal (GCM).

Resgate só foi possível após adolescente conseguir celular

Segundo o guarda municipal Fábio Arantes, da GCM, a equipe foi abordada por uma mulher que relatou que sua irmã estava pedindo ajuda. O pedido de socorro só foi possível porque o filho conseguiu acesso a um dispositivo móvel, algo que a mãe não tinha permissão para utilizar. "Assim que ela viu a guarnição, de imediato ela já começou a chorar pedindo socorro e disse que vivia há vários anos de cárcere privado", relatou o guarda.

A vítima informou aos agentes onde o marido trabalhava e alertou que ele andava armado, demonstrando o clima de medo constante em que vivia. O caso foi registrado como cárcere privado, ameaça, injúria, violência psicológica contra a mulher e lesão corporal.

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Casa era verdadeira prisão com isolamento total

A residência onde a família vivia, localizada na região central de Araras, apresentava características que transformavam o local em uma verdadeira prisão:

  • Janelas bloqueadas por dentro com madeira
  • Grades e placas de metal na fachada externa
  • Concertina (arame farpado) no muro
  • Pallets bloqueando a entrada da casa
  • Portas sempre trancadas

O isolamento era tão extremo que o adolescente nunca frequentou a escola por proibição do pai. "O filho ficou todo esse tempo sem estudo, não sabe nada. Quando questionado, o pai disse que ele mesmo dava as instruções de educação para o filho", explicou o guarda municipal.

Controle absoluto e violência psicológica

De acordo com relatos da família das vítimas, o suspeito exercia controle absoluto sobre a esposa:

  1. Restringia completamente o contato com parentes
  2. Proibia visitas à residência
  3. Controlava o uso do telefone
  4. Acompanhava a mulher em todas as saídas
  5. Obrigava-a a manter a cabeça baixa dentro do carro

A irmã da vítima afirmou que começou a desconfiar da situação há aproximadamente um ano, após receber ligações nas quais a mulher relatava episódios de violência doméstica. Ela também mencionou que o homem dizia possuir uma arma de fogo e que já teria agredido a esposa em outras ocasiões.

Anos de sofrimento e machismo explícito

A delegada titular da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Araras, Evelyn Kafa, está investigando há quanto tempo a vítima era mantida em cárcere. Durante o depoimento, a mulher relatou que ouvia frequentemente frases machistas do companheiro, que afirmava que mulheres "não serviam para nada" e não tinham direito de falar.

"Essas condutas e frases em pleno século 21 me impactaram muito", disse a delegada. "Eu acho que o empoderamento e autoconhecimento ajudam um pouco as vítimas a saírem desse ciclo, porque é um ciclo muito difícil. A gente que está de fora não entende essa situação".

A polícia descobriu que o filho do casal foi impedido de frequentar a escola desde os 7 anos de idade, com o pai alegando que ele mesmo ensinava o menino em casa. O boletim de ocorrência foi registrado na madrugada de 8 de março, coincidindo com o Dia Internacional da Mulher.

Desfecho e apoio às vítimas

A mulher e o adolescente foram encaminhados para um local seguro e recebem apoio da família. "Estamos muito aliviados de ver ela fora do cativeiro. Graças a Deus ela decidiu pedir socorro. Vamos fazer de tudo para amparar ela e o filho", declarou uma parente.

O suspeito foi levado para a cadeia de Limeira e permanece à disposição da Justiça. As investigações continuam para apurar todos os detalhes deste caso que chocou a região de Araras e evidenciou uma situação de violência doméstica extrema que perdurou por anos.

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