Vídeos obtidos pela Rede Amazônica mostram uma sequência de disparos durante a abordagem policial que resultou na morte do jovem Carlos André de Almeida Cardoso, de 19 anos, em Manaus. As imagens, apresentadas pelo Ministério Público do Amazonas (MPAM) à Justiça, indicam que os tiros partiram do policial que estava no banco do carona da viatura.
Decisão judicial
Com base nesse e em outros elementos, a Justiça do Amazonas decidiu, nesta quinta-feira (30), revogar a prisão do policial militar Hudson Marcelo Vilela de Campos, que dirigia o veículo. O pedido de soltura foi feito pelo MP na quarta-feira (29). Na decisão, o juiz considerou que Hudson pode responder ao processo em liberdade, desde que cumpra medidas para não atrapalhar o andamento do caso.
Dinâmica da ocorrência
Na petição, o Ministério Público detalhou a dinâmica da ocorrência com base nas imagens. Segundo o órgão, a perseguição começou após o jovem ser visto em uma motocicleta sem placa. Hudson conduzia a viatura, enquanto o outro policial, o sargento Belmiro Wellington Costa Xavier, portava a arma. Ainda de acordo com o MP, durante a ação, houve um primeiro disparo para o alto, como forma de advertência. Em seguida, já em um cruzamento, ocorreu um segundo disparo, que atingiu o jovem no peito. Não houve novos tiros depois disso.
Posição do Ministério Público
O Ministério Público afirmou que não há indícios de que Hudson tenha efetuado disparos ou participado diretamente da ação que resultou na morte. Para o órgão, o fato de ele estar dirigindo a viatura, por si só, não caracteriza envolvimento nos tiros. Mesmo com a gravidade do caso, o MP avaliou que não há necessidade de manter a prisão do policial neste momento, já que as principais etapas da investigação já foram realizadas.
Medidas cautelares
Com a decisão, Hudson deverá cumprir algumas medidas, como comparecer à Justiça a cada 30 dias, não mudar de endereço sem avisar e atender a todas as convocações judiciais. Ele também está proibido de ter contato com vítimas, familiares e testemunhas, devendo manter distância mínima de 300 metros. Caso descumpra qualquer uma dessas determinações, pode voltar a ser preso.
Defesa dos policiais
O advogado do sargento Belmiro Wellington, Samarone Gomes, afirmou que a decisão recente, que soltou o aluno soldado Hudson, já demonstra que houve "justiça", ao reconhecer, segundo ele, a ausência dos requisitos legais para a manutenção da prisão. O advogado também acredita que o mesmo entendimento deve ser aplicado a Belmiro. Ainda de acordo com a defesa, o policial teria agido, naquele momento, no estrito cumprimento do dever legal, com a intenção de cessar uma suposta injusta agressão. A defesa informou também que, com acesso completo às imagens anexadas ao processo, pretende apresentar uma análise técnica para sustentar essa versão dos fatos.
Relembre o caso
De acordo com familiares da vítima, o rapaz estava em uma motocicleta quando foi abordado por policiais militares por volta das 2h45. A mãe dele relatou que, ao chegar ao local, encontrou o filho caído no chão, com a moto ao lado. Segundo ela, os policiais inicialmente afirmaram que o jovem havia sofrido um acidente. "Quando eu cheguei lá, eu fui desesperada pra cima do corpo. Falaram que eu não podia chegar perto, que ele tinha sofrido um acidente, colidido com a calçada e quebrado o pescoço. Até então, eu me conformei, fiquei lá esperando a perícia. Nisso que a perícia chegou, a primeira coisa que eles fizeram foi virar o corpo e apontar o tiro que ele tomou no peito", disse a mãe.
Uma câmera de segurança registrou a abordagem. Nas imagens, é possível ver o momento em que o jovem é cercado e agredido pelos policiais. Segundo a mãe da vítima, testemunhas relataram que os agentes impediram pessoas de se aproximarem do local após os disparos.
"O que eles fizeram foi totalmente desumano. Eles não foram fazer uma abordagem, eles vieram para matar", afirmou a mãe. O irmão da vítima, que é tenente da Polícia Militar, também compareceu ao local. A ele, os policiais teriam contado outra versão: de que efetuaram disparos para o alto, mas a família questiona como o tiro teria atingido o peito do jovem. Segundo o laudo preliminar do Instituto Médico Legal (IML), a morte foi causada por ferimentos por projétil de arma de fogo. Também foi constatada lesão no pulmão.



