O Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) de Sorocaba (SP) fabricou um buraco falso para servir de cenário para um vídeo viral do prefeito Rodrigo Manga (Republicanos), conhecido como prefeito tiktoker. De acordo com um novo dossiê elaborado por servidores da autarquia, a operação custou ao menos R$ 19,7 mil aos cofres públicos. O documento, obtido pelo g1 nesta segunda-feira (27), detalha o uso de 15 funcionários e sete veículos na suposta farsa e será encaminhado ao Ministério Público para embasar as investigações. Duas denúncias já foram protocoladas sobre o caso.
Estrutura mobilizada
O dossiê aponta que foram mobilizados 15 funcionários do Saae, sete veículos (incluindo caminhão pipa, caminhão de aterro e retroescavadeira) e duas empresas terceirizadas, uma para drenagem e outra para reparo do asfalto. O documento cita falsidade ideológica em série, com registros de atendimento (RAs) e ordens de serviços (OSs) falsos, prevaricação de chefias e diretores, desvio de finalidade, improbidade administrativa e dano ao erário.
Os servidores estimam que o prejuízo mínimo seja de R$ 19,7 mil. O documento ressalta que, no vídeo gravado pelo prefeito, uma pessoa cai dentro do buraco recém-aberto. O buraco continha ou havia contido esgoto da rede do Saae, representando risco de contaminação biológica e gases tóxicos como metano e sulfeto.
O que dizem os órgãos fiscalizadores
A Prefeitura de Sorocaba não se manifestou sobre o documento até a publicação desta reportagem. O Ministério Público do Estado de São Paulo foi questionado sobre a evolução das denúncias feitas na quinta-feira (23). Em nota, informou que não havia novidades até esta segunda-feira (27). O Ministério Público do Trabalho (MPT) disse que está ciente do caso, mas não recebeu denúncia formal sobre assédio dentro da autarquia.
Relato de moradores
Um vizinho, que preferiu não se identificar, contou ao g1 que a equipe do Saae ficou parada esperando o prefeito chegar para a gravação. "A gente vê uma equipe ficar parada meio período, e não é o procedimento padrão", afirmou. O morador estranhou a agilidade do serviço, pois teve um problema que levou um mês para ser resolvido, enquanto naquela ocasião abriram e fecharam o buraco no mesmo dia. Ele também disse que não havia problema aparente na via antes da obra.
Contradições nos documentos
A denúncia original, feita por servidores do Saae, é sustentada por inconsistências nos registros oficiais. Um relatório que deveria mostrar o antes e o depois do reparo usou a mesma foto para as duas situações. As fotos foram tiradas a cerca de 70 metros de onde o buraco foi aberto. Um dos documentos de serviço traz anotação de que o problema não era de responsabilidade da autarquia. O vídeo mostra que a tampa de um poço de vistoria, que precisaria ser aberto para o suposto reparo, sequer foi movimentada.
Uma foto da rua feita momentos antes do início dos trabalhos não mostra afundamento, vazamento de água ou esgoto na via. Ao menos dez servidores foram deslocados para a ocorrência, o que é incomum. "Se verificar no GPS das equipes, vai ver que nunca estiveram todas as equipes na mesma ocorrência em tão pouco tempo", afirmou um servidor.
Posicionamento da prefeitura e do Saae
Na quinta-feira (23), a prefeitura afirmou que a vala foi aberta para obra de manutenção em rede de esgoto e que tudo seguiu ordens de fluxo interno de controle. A autarquia e a prefeitura não comentaram as denúncias. Horas após a publicação da reportagem, o Saae enviou novo posicionamento alegando que o registro de atendimento do serviço executado seria de outra intervenção, enviando um print do suposto registro correto.
O vídeo de 19 segundos, publicado no perfil pessoal de Rodrigo Manga, acumulava mais de 6,5 milhões de visualizações e 330 mil curtidas no Instagram até sexta-feira (24). O caso ganhou repercussão nacional e o Ministério Público analisa as denúncias.



