A sexta fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal nesta quinta-feira (14), teve como alvo o policial federal Anderson Wander da Silva Lima, acusado de atuar como "agente infiltrado" dentro da própria corporação em benefício do grupo do empresário Daniel Vorcaro. Segundo decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, Anderson, que estava na ativa, realizava consultas indevidas em sistemas internos da PF e repassava dados sigilosos ao policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, apontado como chefe do núcleo conhecido como "A Turma". Até a última atualização desta reportagem, não havia confirmação se Anderson Wander havia sido preso.
De acordo com a investigação, Anderson atuava como "longa manus" — espécie de braço direito — de Marilson dentro da PF, aproveitando o acesso privilegiado a bases de dados oficiais. Lotado na Delegacia Especial da Polícia Federal no Aeroporto Internacional do Galeão, ele era constantemente acionado para levantar informações de interesse do grupo. "Trata-se, portanto, de atuação que, em juízo de delibação, revela abuso continuado da função pública, violação de sigilo funcional e inserção orgânica no núcleo policial-informacional da 'Turma'", diz trecho da decisão.
Consultas e repasses de dados
A PF afirma que, ao menos desde agosto de 2023, Anderson realizava pesquisas em sistemas internos e transmitia os resultados a Marilson, que repassava os dados a outros integrantes da organização e ao núcleo central ligado a Vorcaro. Um dos exemplos citados ocorreu em 5 de agosto de 2023, quando Anderson teria aberto uma consulta para saber se uma mulher tinha saído do país. A investigação aponta que ele chegou a mobilizar colegas para obter as informações. Também há registros de solicitações para verificar investigações em andamento e levantar dados sobre procedimentos que envolviam diretamente Daniel Vorcaro e Henrique Vorcaro — pai do empresário, preso nesta quinta-feira.
Pagamento e vantagens
A decisão aponta indícios de que Anderson recebeu vantagens financeiras em troca dos serviços. Em uma das conversas, Marilson pediu a chave Pix do policial para enviar um "presente", que foi agradecido posteriormente. Segundo a investigação, há indícios de relação continuada, com expectativa de novas demandas e remuneração. Em mensagens, Anderson menciona interesse em fazer "trabalhinhos" e pede "fortalecimento". A PF também cita um pagamento realizado no fim de 2025, que, segundo a investigação, seria compatível com um bônus distribuído pelo grupo.
Outro alvo no RJ
A PF também tentava prender nesta quinta-feira Manoel Mendes Rodrigues, apontado pela investigação como operador do jogo do bicho e chefe de um braço local da "Turma" de Vorcaro. Segundo a Polícia Federal, Manoel atuava como responsável por articular ações presenciais no estado, reunindo uma rede que incluiria milicianos, bicheiros e policiais para executar ameaças e intimidações. A atuação dele é descrita como central para dar suporte territorial às ordens do núcleo principal da organização, funcionando como elo entre os mandantes e a execução de ações coercitivas no Rio.
Quem é Marilson
Marilson Roseno da Silva, apontado como chefe da "Turma", é um policial federal aposentado que, segundo a PF, coordenava ações de monitoramento, intimidação e obtenção de dados sigilosos em benefício de Vorcaro. Mesmo após ser preso, segundo a decisão, ele teria continuado recebendo informações vazadas ilegalmente, o que indicaria a manutenção de uma rede ativa dentro e fora da corporação.



