Mutilação genital feminina na Colômbia: mulheres emberás lutam para romper ciclo ancestral
Para vidas como a de Carla Quiñonez, a mutilação genital feminina na comunidade emberá representa um ciclo de dor difícil de interromper. Esta prática ancestral persiste como uma realidade silenciosa que afeta meninas desde os primeiros meses de vida, deixando sequelas físicas e emocionais permanentes.
Um relato pessoal que revela a dor silenciada
Carla Quiñonez, indígena emberá de 30 anos, compartilha sua experiência traumática: "Minha filha tinha seis meses quando minha avó fez nela o procedimento. Fiquei sabendo depois. Eu a recebi com febre, inchada e sangrando". Questionada, a avó justificou que era normal e proibiu que falassem sobre o assunto.
Hoje, com quatro anos, a menina sofre dores e infecções urinárias frequentes - sintomas comuns entre sobreviventes de mutilação genital feminina. O ex-marido de Carla, ao descobrir o ocorrido, agrediu-a violentamente, acreditando que ela havia autorizado a prática.
A realidade dos números e suas limitações
A Colômbia é o único país da América Latina que reconhecidamente ainda registra casos de mutilação genital feminina. Dados do Congresso colombiano indicam que, em 2025, foram registrados 26 casos até outubro. Em 2024, foram relatados 54 casos, e em 2023, 91 ocorrências.
Porém, autoridades, médicos e membros da comunidade emberá contrários à prática afirmam que os números reais são muito superiores. A maior incidência ocorre no departamento de Risaralda, noroeste do país, onde vive a comunidade de Quiñonez.
Consequências devastadoras para a saúde
A mutilação genital feminina envolve a remoção total ou parcial dos genitais externos femininos sem motivos médicos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que mais de 300 milhões de meninas e mulheres vivas atualmente tenham sofrido esta prática globalmente.
As consequências incluem:
- Hemorragias severas
- Problemas urinários e menstruais
- Complicações no parto
- Cistos e infecções recorrentes
- Aumento do risco de mortalidade neonatal
- Dificuldades para vivenciar prazer sexual
O trabalho das profissionais de saúde na linha de frente
No Hospital San Jorge de Pereira, em Risaralda, a pediatra Diana Ramos Mosquera lida diariamente com casos que vão além dos registros oficiais. "Observamos uma cicatriz. Às vezes, é difícil avaliar qual mutilação elas sofreram", explica a médica, que descreve os casos conhecidos como "a ponta do iceberg".
Ramos Mosquera relata que, pelos relatos dos emberás, sabe-se que o costume ocorre após o nascimento, com uma faca quente. "Observamos queimaduras e mutilações do tipo 1 e 2", detalha, referindo-se à classificação da OMS que inclui remoção do clitóris e dos lábios vaginais.
Raízes culturais e teorias sobre a origem
Com aproximadamente 300 mil membros, a Grande Nação Emberá é uma das comunidades indígenas mais numerosas da Colômbia, presente também no Equador e Panamá. Entre os grupos que praticam a mutilação - detectada entre emberás chami, katio e dobidá - muitos acreditam que seja parte da cultura ancestral, chamando-a de "cura".
Juliana Domico, consultora da Confederação Nacional dos Povos da Grande Nação Emberá, nega que a prática faça parte da cultura ancestral. "Nós somos as nossas roupas, artesanato, danças e idioma, não uma prática que mata. A cultura não mata", afirma categoricamente.
Existem teorias não confirmadas sobre a origem da prática na Colômbia. Uma delas sugere que teria chegado durante o período colonial com pessoas escravizadas de países africanos onde era praticada. Outra, proveniente da herança oral emberá, menciona o nascimento histórico de uma criança intersexual que teria gerado "fobia do clitóris".
Resistência, ameaças e estigmatização
Carla Quiñonez enfrenta ameaças por seu trabalho de conscientização. "Fui ameaçada por divulgar e conscientizar as pessoas de que isso deve acabar", revela. Ela também relata discriminação nos serviços de saúde urbanos: "Quando chego com minha filha com complicações da mutilação, sinto que, às vezes, eles nem sabem o que é".
Em uma experiência particularmente dolorosa, uma enfermeira a chamou de "selvagem" quando levou a filha com infecção urinária. "Desde então, prefiro não levar minha filha ao hospital. Eu a trato com plantas e medicamentos", confessa Carla.
Caminho legislativo e desafios institucionais
A mutilação genital feminina na Colômbia só ganhou atenção midiática em 2007, após a morte de uma bebê mutilada. Dezenove anos depois, em 2025, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei para prevenir, atender e erradicar o fenômeno, que aguarda aprovação do Senado.
A parlamentar Carolina Giraldo, de Risaralda, defensora da lei, explica os desafios: "Como os casos se concentram em certas comunidades, especialmente em Risaralda, foi difícil unificar uma reação institucional". Ela defende uma abordagem focada na prevenção: "O principal é salvar vidas. Se penalizarmos as avós e as parteiras, é menos provável que elas levem as crianças ao hospital".
Mudanças geracionais e esperança no diálogo
Apesar das dificuldades, Carla observa transformações: "Cada vez mais mulheres estão dispostas a mudar as coisas. Elas reconhecem que a mutilação é algo ruim". Ela relata até mesmo avós refletindo sobre a prática após realizá-la em suas netas.
O caminho à frente inclui o difícil diálogo que Carla precisará ter com sua própria filha. "Também será difícil o dia em que eu precisar falar com minha filha, mas não posso fugir dessa conversa. Todas nós merecemos conhecer e falar sem vergonha dos nossos corpos", afirma com determinação.
Enquanto isso, ela continua viajando por territórios remotos, realizando oficinas e questionando autoridades indígenas conservadoras - sempre com o objetivo de garantir que menos meninas precisem passar pela dor que marcou a vida de sua filha.



