Ex-banqueiro Daniel Vorcaro comprou R$ 260 milhões em arte via offshores, revelam documentos
Vorcaro comprou R$ 260 mi em arte via offshores, diz CPMI

Documentos revelam compras milionárias de arte por ex-banqueiro através de paraísos fiscais

Documentos obtidos pela CPMI do INSS e pelo liquidante do Banco Master expõem uma rede complexa de aquisições de obras de arte pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, totalizando mais de R$ 260 milhões em transações. Este valor representa aproximadamente cinco vezes o montante declarado por Vorcaro ao Fisco, levantando questões sobre possíveis sonegações fiscais e ocultação de patrimônio.

Obras de Picasso e Basquiat no centro de disputa judicial internacional

As investigações focam em obras de Pablo Picasso e Jean-Michel Basquiat adquiridas através de empresas sediadas nas Bahamas, um conhecido paraíso fiscal, e no Alasca, estado americano que não cobra Imposto de Renda. Estas peças valiosas estão agora no centro de disputas judiciais tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, com a liquidante EFB Regimes Especiais tentando rastrear os ativos distribuídos em uma intrincada teia de fundos e offshores.

Nos registros do Imposto de Renda de 2025, referente ao ano de 2024, Vorcaro declarou possuir R$ 47.283.322,51 em obras de arte, joias e relógios. Este foi o maior valor declarado por ele desde 2016 para este tipo de bem, mas ainda assim significativamente inferior aos valores apontados pelas investigações. A defesa do ex-banqueiro se recusou a comentar, alegando que as informações decorrem de vazamentos ilegais de material sigiloso.

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Estratégias de ocultação e rastreamento de ativos

Processos na Justiça americana indicam que obras avaliadas em mais de R$ 100 milhões estiveram sob posse de Vorcaro entre 2022 e 2025. A EFB seguiu o rastro de movimentações financeiras, levantou documentos em juntas comerciais no Brasil e exterior, e contou com a colaboração de galerias para reconstruir o caminho das obras de arte.

Segundo a Receita Federal, é comum que compras de obras de arte sejam realizadas através de holdings e trustes, o que dificulta a localização dos bens devido à dispersão das provas documentais. Na declaração do Imposto de Renda individual, o contribuinte só precisa declarar o que está sob posse direta, uma prática que pode ter sido utilizada por Vorcaro e também pelo ex-dono do Banco Santos, Edemar Cid Ferreira.

Transações milionárias e intermediação questionável

Na Justiça dos EUA, a EFB busca rastrear as obras de Vorcaro solicitando a intimação de 16 galerias de arte americanas que podem ter mantido negócios com o ex-banqueiro. Registros de movimentação de uma conta bancária nas Bahamas mostram transações que somam US$ 80 milhões (aproximadamente R$ 420 milhões), embora a petição não especifique quanto foi destinado à compra de obras de arte.

Esta mesma conta foi utilizada na aquisição de um quadro de Basquiat comprado por US$ 4,5 milhões na galeria Van de Weghe (VDW). As obras teriam sido adquiridas com intermediação da decoradora Carolina Junqueira, hoje residente em Miami, que não respondeu aos contatos da reportagem.

Comunicações obtidas pela investigação mostram que, quando a VDW notificou Junqueira sobre uma oferta de US$ 4,7 milhões pelo primeiro Basquiat, ela respondeu que Daniel Vorcaro não venderia por aquele preço e que ele não venderia por menos de US$ 5 milhões. Esta troca de mensagens foi compartilhada pela galeria sediada em Nova York e reforça a conexão direta entre Vorcaro e as obras.

Patrimônio congelado e vendas questionáveis

Os autos mostram que Vorcaro aceitou a venda do quadro pelo valor de US$ 4,7 milhões em novembro, mesmo tendo seu patrimônio congelado pelo Banco Central desde setembro, por decreto da liquidação do Banco Master. Esta movimentação ocorreu enquanto seus bens estavam sob restrição legal, aumentando as suspeitas sobre a destinação dos recursos.

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Além das obras internacionais, Vorcaro também adquiria arte de pintores renomados no Brasil. Pessoas que visitaram sua mansão em Brasília relatam a presença de um painel de Di Cavalcanti com cerca de três metros de largura. O escritório de arquitetura studioHub, que projetou a residência no Lago Sul, confirmou que o desenho da casa teve o propósito específico de valorizar o acervo de obras de arte do ex-dono.

Rede familiar e conexões com o mercado brasileiro

A galeria brasileira Almeida e Dale afirma, em nota, que intermediou vendas de obras de arte para a empresa Super Empreendimentos, administrada por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro que também é investigado por participação nas fraudes da Polícia Federal. Documentos do celular de Vorcaro, guardado na sala-cofre da CPMI do INSS, indicam que o banqueiro transferiu mais de R$ 165 milhões para compras nesta galeria.

Registros mostram que Vorcaro frequenta feiras de arte no Rio e em São Paulo desde pelo menos 2017. No ano seguinte, ele declarou pela primeira vez ter obras de arte no valor de R$ 1,2 milhão. Em maio daquele ano, fotografou uma anotação com dados bancários da galerista Márcia Barrozo do Amaral, falecida em 2023, cuja família afirma não ter conhecimento de qualquer relação com Vorcaro.

Fragilidades no sistema de registro de obras de arte

De acordo com o galerista Thiago Gomide, da Galeria Gomide & CO, os compradores de obras de arte não precisam assinar contratos nem fazer registro em cartório. A empresa emite uma nota fiscal, como se fosse uma loja comum. É isso e pronto. O comprador deve declarar no Imposto de Renda, mas tem gente que esquece, tem gente que é desorganizada e não declara, afirma Gomide, destacando as vulnerabilidades do sistema.

Paralelos com o caso Banco Santos

O caso apresenta paralelos com o do Banco Santos, liquidado pelo Banco Central em 2004. Parte das obras de Edemar Cid Ferreira foi apreendida em 2005 e destinada a museus para compensar perdas do Estado com lavagem de dinheiro. Este acervo foi recuperado judicialmente pelos credores mais de uma década depois e encaminhado para leilão.

Outra parte das obras foi extraviada para o exterior, como o quadro Hannibal de Basquiat, enviado para a Holanda em 2005 e posteriormente para os Estados Unidos, onde foi vendido por intermediários de Ferreira. A liquidante do Santos recuperou a tela anos depois e a leiloou na Sotheby's de Londres por 9,6 milhões de libras (cerca de R$ 67,4 milhões) no final de 2016.

Contexto atual do ex-banqueiro

Enquanto as investigações avançam, Vorcaro recebeu a primeira visita de seus pais após ser transferido para a prisão na Polícia Federal. Eles chegaram à Superintendência da PF acompanhados de advogados nesta terça-feira (24). Inicialmente alocado na carceragem comum, o ex-banqueiro foi transferido para uma sala de Estado-Maior, conforme informações atualizadas.

As descobertas da CPMI do INSS e do liquidante do Banco Master continuam a revelar a extensão das operações financeiras de Vorcaro, com implicações significativas para o sistema fiscal brasileiro e a justiça internacional. As investigações buscam não apenas recuperar ativos, mas também esclarecer os mecanismos utilizados para a possível ocultação de patrimônio através do mercado de arte.