Família Trump amplia império empresarial durante segundo mandato presidencial
Enquanto presidentes anteriores dos Estados Unidos tomavam cuidados extremos para evitar a aparência de enriquecimento através do cargo, Donald Trump segue um caminho distinto. A Trump Organization, empresa familiar de imóveis, experimenta crescimento internacional em ritmo sem precedentes desde sua fundação há um século, com acordos que potencialmente influenciam desde decisões tarifárias até políticas de ajuda militar.
Expansão global e questionamentos éticos
Comandados pelos filhos Eric e Donald Jr., os negócios da família diversificaram-se para incluir criptomoedas e outras atividades que geraram bilhões de dólares, mas também levantaram dúvidas sobre possíveis vantagens concedidas a grandes investidores. Os irmãos participaram ou investiram em diversas empresas que buscam contratos com o governo federal.
Recentemente, Eric e Donald Jr. adquiriram participação milionária em empresa fabricante de drones armados que tenta vender produtos tanto para o Pentágono quanto para países do Golfo, que dependem da proteção militar norte-americana. A Casa Branca e a Trump Organization negam qualquer problema ético nas operações.
Boom de negócios internacionais
Durante o primeiro mandato de Trump, a Trump Organization não fechou acordos fora dos Estados Unidos. No entanto, pouco mais de um ano após o início do segundo mandato, já são oito negócios internacionais em andamento. A empresa afirma seguir regras internas de não negociar diretamente com governos estrangeiros, mas especialistas questionam essa afirmação.
No Catar, um clube de golfe e casas de luxo com o nome Trump está sendo construído com participação de empresa do governo local. No Vietnã, agricultores foram retirados de suas terras pelo governo para dar espaço a um resort Trump, com acordo aprovado em cerimônia oficial com presença do vice-primeiro-ministro. Na Arábia Saudita, um resort "Trump Plaza" está sendo erguido no Mar Vermelho por empresa próxima à família real.
Embora não seja possível confirmar se esses negócios alteraram decisões dos Estados Unidos, os países envolvidos obtiveram benefícios significativos: acesso à tecnologia americana (Catar), redução de impostos (Vietnã) e recebimento de aviões de combate (Arábia Saudita). A Trump Organization recebeu dezenas de milhões de dólares em taxas por esses projetos.
Criptomoedas e conexões internacionais
Outro negócio que gera dúvidas sobre conflitos de interesse envolve criptomoedas. Pouco antes da posse para o segundo mandato, a família Trump vendeu quase metade da empresa World Liberty Financial para companhia ligada ao governo dos Emirados Árabes Unidos por US$ 500 milhões. Posteriormente, o governo Trump cancelou regra da administração Biden que permitiu aos Emirados Árabes Unidos comprar chips avançados dos Estados Unidos.
A World Liberty também criou nova fonte de renda através da venda de "tokens de governança", que arrecadaram US$ 2 bilhões apenas no ano passado. A família Trump ganhou centenas de milhões de dólares por sua participação na empresa e por acordo que garante parte dessas vendas.
Produtos presidenciais e volatilidade
Trump também comercializa produtos diretamente ao público, incluindo Bíblias "God Bless the USA" por US$ 59,99, tênis "Never Surrender" por US$ 399 e guitarras elétricas autografadas que podem custar até US$ 11.500. As moedas "meme" com o rosto de Trump renderam US$ 320 milhões em quatro meses, mais que o dobro do arrecadado em quatro anos com o Trump International Hotel em Washington D.C. durante o primeiro mandato.
No entanto, os negócios não são imunes à volatilidade das criptomoedas. Tanto as ações da American Bitcoin quanto o valor das moedas meme de Trump perderam 90% do valor desde seus picos. Apesar disso, a fortuna de Trump agora chega a US$ 6,3 bilhões, aumento de 60% comparado ao período anterior ao retorno à presidência.
Respostas e perspectivas
A Casa Branca afirma que Trump age de "maneira ética" e que qualquer sugestão diferente é "mal informada ou maliciosa". A porta-voz Anna Kelly reforçou que os bens de Trump estão sob administração dos filhos e que ele "não tem envolvimento" nos negócios da família. Em comunicado, a Trump Organization declarou estar "totalmente em conformidade com todas as leis aplicáveis de ética e conflitos de interesse".
Especialistas em ética governamental e historiadores argumentam, no entanto, que os conflitos de interesse são mais preocupantes do que nunca. "Não acho que haja atualmente qualquer linha entre decisões políticas, cálculos políticos e o interesse da família Trump", afirmou Julian Zelizer, historiador presidencial da Universidade de Princeton.
Pesquisa do Pew Research Center de janeiro revela que 42% dos eleitores republicanos confiam que Trump age de forma ética, número menor que os 55% registrados no início do segundo mandato. Enquanto isso, os negócios da família continuam se expandindo, com novo acordo anunciado em janeiro para construção na Arábia Saudita e empresas dos filhos buscando contratos com o Pentágono.



