Áudios revelam cobranças e ameaças em esquema de agiotagem milionário no Amazonas
Áudios mostram ameaças em esquema de agiotagem no Amazonas

Áudios revelam cobranças e ameaças em esquema de agiotagem milionário no Amazonas

Áudios obtidos pela Polícia Civil do Amazonas expõem cobranças insistentes, intimidações e pressão psicológica contra vítimas de um esquema de agiotagem no estado. As gravações estão sendo analisadas na segunda fase da Operação Tormenta, deflagrada nesta terça-feira (14), que resultou na prisão de cinco pessoas suspeitas de integrar uma rede criminosa que movimentou mais de R$ 150 milhões.

Tenente da Aeronáutica entre os presos

Entre os detidos está o tenente da Aeronáutica Caique Assunção dos Santos, apontado como líder de um dos grupos envolvidos no esquema. De acordo com as investigações, ele mantinha ligações com outros núcleos de agiotas, que atuavam de forma integrada para oferecer empréstimos clandestinos com juros abusivos, podendo aumentar as dívidas em mais de 50% ao mês.

Conteúdo dos áudios e táticas de intimidação

Nas mensagens de áudio, os suspeitos exigem pagamentos, impõem prazos curtos e reforçam ameaças veladas contra as vítimas. Em um trecho, uma vítima é pressionada a quitar a dívida com o próprio salário, com um investigado afirmando: "Desse mês não pode passar não. Vai ter que dar seu jeitinho aí pra você pagar". Em outro áudio, o tom é mais direto e ameaçador: "A gente já fechou um combinado. Você procurou o crime para ajeitar sua vida, a gente ajeitou parcelado, direitinho, quem não tá honrando é tu minha parceira, entendeu? Não sou eu não, não sou eu que estou te pressionando a toa não. Passa as datas, tu marca as datas e tira a gente pra otário".

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Um dos suspeitos também debocha de uma suposta denúncia à polícia, dizendo: "É tu que sabe onde teu calo vai apertar. Se eu tivesse medo de delegacia eu não trabalhava nesse ramo mais não". Segundo a polícia, essas gravações ajudam a comprovar a atuação de grupos organizados que utilizavam ameaças para garantir o pagamento de dívidas exorbitantes.

Vítimas e métodos de extorsão

As investigações, iniciadas em janeiro deste ano, indicam que as principais vítimas eram servidoras públicas, especialmente mulheres que trabalham em órgãos como o Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) e o Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM). Após conceder os empréstimos, os criminosos passavam a extorquir as vítimas, se apropriando de bens como veículos, joias, eletrônicos e até imóveis. Eles também tomavam documentos pessoais e cartões bancários, chegando a controlar aplicativos para retirar dinheiro diretamente das contas.

Quando encontravam dificuldade para receber os valores, os agiotas repassavam a dívida para outros grupos ligados ao esquema, fazendo a dívida crescer ainda mais e mantendo um ciclo contínuo de extorsão. O delegado Cícero Túlio explicou: "São diversos grupos de agiotas que, interligados entre eles, realizavam cobranças de juros excessivos e as extorsões, inclusive a realização de roubos".

Primeira fase da operação e continuidade do esquema

Na primeira fase da Operação Tormenta, a polícia identificou pelo menos cinco vítimas. Uma delas, servidora do TJAM, relatou que fez um empréstimo inicial de R$ 5 mil, mas a dívida cresceu rapidamente para valores milionários, resultando na perda de dois imóveis e um carro, além de sofrer ameaças de morte e sequestro do filho. Durante essa fase, foram cumpridos mandados de prisão, busca e apreensão, com apreensão de armas, dinheiro, documentos e cerca de 30 veículos de luxo.

Mesmo com parte do grupo presa, as investigações mostraram que o esquema continuou funcionando por meio de intermediários, que mantinham as cobranças, ameaças e movimentações financeiras. Cícero Túlio destacou: "Durante a primeira fase da Operação Tormenta, a gente conseguiu retirar parte dessa organização criminosa de circulação e mesmo com sete pessoas presas, eles continuaram e ainda debocharam da atuação da polícia e do Poder Judiciário".

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Empresas de fachada e outros crimes

As investigações apontam que o grupo utilizava empresas de fachada para ocultar a origem do dinheiro obtido com os crimes, em um esquema de lavagem de dinheiro. Pelo menos seis empresas tiveram bloqueios financeiros determinados pela Justiça nesta segunda fase da operação. Uma delas, ligada a investigados da primeira fase, teria movimentado mais de R$ 3,3 milhões, segundo dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Além disso, o tenente Caique Assunção dos Santos também é investigado por uma tentativa de homicídio registrada em fevereiro, na Zona Norte de Manaus. Ele teria fugido após o crime e abandonado o veículo, que foi apreendido. Outros seis suspeitos seguem foragidos, e a polícia pede a colaboração da população com informações para localizá-los.