O prefeito do Recife e presidente nacional do PSB, João Campos, se posicionou publicamente sobre a polêmica envolvendo uma nomeação para cargo público reservado a pessoas com deficiência (PCD). O caso resultou em um pedido de impeachment protocolado por vereadores e na tentativa de abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o gestor.
A defesa do prefeito e a acusação de oportunismo
Em suas declarações, João Campos negou veementemente qualquer favorecimento irregular. Ele classificou a situação como uma mera "disputa administrativa" entre dois candidatos que poderiam ocupar a vaga destinada a PCDs. O prefeito atribuiu a controvérsia a "oportunismo eleitoral", criticando o uso da causa das pessoas com deficiência como trampolim político.
Campos ainda ressaltou seu envolvimento pessoal com a pauta, mencionando que tem um irmão com Síndrome de Down, e afirmou que a causa PCD "move a sua vida". Ele também argumentou que nomeou diversas outras pessoas para cargos de forma protocolada e que não poderia se aprofundar em cada caso individualmente.
Os detalhes da nomeação irregular de Lucas Vieira
O cerne da polêmica que motivou o pedido de impeachment e a CPI é a nomeação de Lucas Vieira da Silva para o cargo de procurador do município em uma vaga PCD. A nomeação, assinada por João Campos, foi publicada no Diário Oficial do Município em 23 de dezembro de 2025.
No entanto, a contratação apresentava uma série de irregularidades:
- Lucas Vieira havia ficado na 63ª posição no concurso público, realizado em 2022 e homologado em junho de 2023.
- Quando fez a prova, não possuía laudo de PCD e concorreu apenas às vagas de ampla concorrência, não às afirmativas.
- Em 29 de maio de 2025, mais de três anos após o concurso, ele solicitou uma reclassificação para concorrer como PCD.
- Esse pedido foi negado por três procuradoras concursadas do município em decisões técnicas sucessivas.
Apesar das negativas técnicas, o caso foi encaminhado ao então procurador-geral do município, Pedro Pontes – cargo comissionado indicado pelo próprio prefeito João Campos –, que reverteu a decisão e permitiu a nomeação. A medida gerou prejuízo a outro candidato que, ao fazer a prova, já apresentava laudo de PCD e teria direito à vaga.
Diante da forte repercussão negativa e da pressão popular, a gestão municipal decidiu revogar a nomeação.
Reação da Câmara e justificativas para o impeachment
O vereador Eduardo Moura, autor do pedido de impeachment, foi enfático ao criticar a ação do prefeito. "Quando o prefeito descumpre o edital, ele pratica um ato contra a expressa disposição legal", afirmou. Para o parlamentar, o caso infringiu dispositivos da Lei Orgânica do Município, da Lei de Improbidade Administrativa, do Decreto-Lei 201 e até do Código Penal.
Moura também levantou suspeitas de possível favorecimento. Ele destacou que Lucas Vieira é filho de uma procuradora do Tribunal de Contas do Estado e de um juiz que atua na vara de crimes contra a administração pública da capital. Curiosamente, em novembro de 2025, um mês antes da nomeação, esse mesmo juiz anulou os atos da Operação Barriga de Aluguel, que investigava a gestão de João Campos por possível desvio de verbas no valor de 500 milhões de reais.
"Os atos atentam contra a probidade administrativa e contra o cumprimento das leis, o que configura crime de responsabilidade", justificou o vereador, defendendo o pedido de impeachment.
Popularidade e cenário político futuro
Apesar da turbulência, João Campos mantém um alto índice de aprovação. Ele é o quinto prefeito de capital com maior aprovação do país, com 64%, segundo ranking do instituto AtlasIntel divulgado em dezembro. Além disso, o prefeito é apontado como um dos principais nomes para uma eventual renovação da esquerda no Brasil.
No cenário estadual, ele aparece como forte candidato ao governo de Pernambuco em 2026. Uma pesquisa do instituto Paraná Pesquisas, divulgada no final de dezembro, mostra que, em um eventual primeiro turno, Campos teria 53,1% das intenções de voto, contra 31,0% da atual governadora, Raquel Lyra (PSD).
Fontes próximas ao prefeito acreditam que nem o pedido de impeachment nem a CPI conseguirão as assinaturas necessárias para prosperar na Câmara de Vereadores do Recife, dada a base de apoio do gestor. O caso, no entanto, segue como um dos principais desafios políticos enfrentados por João Campos à frente da prefeitura.