Polêmica entre Ratinho e Erika Hilton gera milhões de interações nas redes sociais
Um relatório do Instituto Democracia em Xeque revelou a intensa repercussão nas redes sociais da polêmica envolvendo o apresentador Carlos Roberto Massa, conhecido como Ratinho, e a deputada federal Erika Hilton do PSOL-SP. O debate, que teve início na semana passada após comentários transfóbicos do apresentador sobre a eleição da parlamentar para presidir a Comissão da Mulher da Câmara, gerou 956 mil postagens em apenas sete dias, alcançando impressionantes 15,6 milhões de interações de usuários nas principais plataformas digitais.
Predomínio da direita no debate digital
O levantamento, realizado por meio da ferramenta DataLake com dados coletados do Facebook, Instagram, YouTube, X e TikTok, aponta um forte predomínio de perfis alinhados à direita no debate. Esses perfis foram responsáveis por cerca de 1,9 mil publicações, enquanto a esquerda apareceu em segundo lugar com 962 posts. A imprensa (422) e o centro (393) ocuparam posições intermediárias no cenário digital.
Quando analisadas as mais de 15 milhões de interações, o cenário se repete: a direita concentrou aproximadamente 7 milhões de interações, superando com folga os demais campos ideológicos. A esquerda manteve presença relevante com 4,2 milhões de interações, mas ainda distante do volume alcançado pelos perfis de direita.
Narrativas em disputa e perfis de fofoca
Andressa Costa, pesquisadora do Instituto Democracia em Xeque e do Centro de Administração e Políticas Públicas da Universidade de Lisboa, explica que "a esquerda apresentou apoio amplo à deputada através da campanha #ErikaMeRepresenta, com críticas ao apresentador Ratinho focadas em seu histórico de episódios polêmicos e na retomada do debate sobre violência de gênero e feminicídio".
Já a extrema-direita, segundo a pesquisadora, "se apropriou da agenda para disseminar narrativas conservadoras e impulsionar uma agenda anti-woke". Curiosamente, muitas publicações reconhecem a luta de mulheres trans como legítima, mas sempre em torno de um eixo de diferenciação entre "mulheres biológicas" e mulheres trans para questionar a legitimidade da representatividade de Erika Hilton na Comissão.
Um dado que chama atenção é a categoria "fofoca", que registrou 1,7 milhão de interações, indicando que parte significativa da repercussão ocorreu por meio de perfis de entretenimento e celebridades. Esses perfis ajudaram a ampliar o alcance do tema para além do debate político estrito, levando a discussão para públicos mais amplos.
Perfis com maior engajamento
Os três perfis que mais se destacaram em termos de engajamento durante a polêmica foram:
- Deputada Erika Hilton
- Perfil de fofoca "Alfinetei"
- Vereador bolsonarista de São Paulo Lucas Pavanato (PL)
O perfil de Lucas Pavanato foi um dos mais engajados no período, com 954 mil interações. Segundo a análise do instituto, perfis como o dele lideraram uma ofensiva que tenta enquadrar a presença de mulheres trans em espaços de poder como uma ameaça aos direitos das "mulheres biológicas", criando um conflito artificial entre biologia e ideologia para mobilizar sua base política.
O caso e suas consequências legais
A polêmica começou quando Ratinho criticou a eleição de Erika Hilton para presidir a Comissão da Mulher da Câmara, negando que ela fosse uma mulher por ser uma pessoa trans. O apresentador afirmou que "para ser mulher tem que ter útero, menstruar" e que "deveria deixar uma mulher ocupar este espaço".
Em resposta, a deputada Erika Hilton acionou o Ministério Público contra Ratinho e o SBT. A instituição se posicionou defendendo a condenação judicial dos dois, com o pagamento de uma multa de 10 milhões de reais por indenização e danos morais coletivos.
Vale destacar que desde 2019 a transfobia é crime no Brasil, após decisão do Supremo Tribunal Federal que equiparou a transfobia e a homofobia ao crime de racismo. Condutas discriminatórias, ofensas, agressões físicas ou a negação de direitos baseados na identidade de gênero podem ser punidas com penas que variam de multa a até três anos de reclusão.
O SBT emitiu nota à imprensa afirmando que "repudia qualquer tipo de discriminação e preconceito" e que as declarações do apresentador "não representam a opinião da emissora", estando sob análise da direção da empresa.



