Banco Master e Reag: Operações suspeitas movimentaram R$ 440 milhões em lucros para Daniel Vorcaro
Banco Master: R$ 440 mi em lucros suspeitos com fundos da Reag

Operações financeiras suspeitas envolvendo Banco Master e Reag geram lucros milionários

O Banco de Brasília (BRB) protocolou um comunicado detalhado no Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) em 18 de novembro de 2025, apontando uma série de operações suspeitas envolvendo o Banco Master, controlado pelo empresário Daniel Vorcaro. O documento, dividido em três partes, foi enviado apenas um dia após a prisão de Vorcaro no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando tentava embarcar para Dubai.

Relações comerciais e alertas tardios

Segundo o próprio relatório do BRB, as relações entre as instituições financeiras começaram em 2021 e se intensificaram significativamente ao longo de 2024 e 2025. Apesar disso, nenhum comunicado de operações suspeitas havia sido enviado ao Coaf até novembro de 2025, levantando questões sobre o tempo de resposta das autoridades.

No informe, o BRB identificou "movimentações incompatíveis com o perfil econômico" e estruturas financeiras com dificuldade de identificação do beneficiário final relacionadas ao Banco Master. As transações analisadas cobrem o período entre maio de 2024 e novembro de 2025.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Indícios de lavagem de dinheiro

O documento cita três fatores principais que indicam possível esquema de lavagem de dinheiro:

  1. A data de criação dos fundos que compraram ações do BRB
  2. A concentração do patrimônio desses fundos exclusivamente em ações do banco
  3. A existência de um "cotista único" como responsável por esses fundos

Durante 2025, o BRB tentou adquirir 58% das ações do Banco Master por R$ 2 bilhões, operação que contava com apoio do governo Ibaneis Rocha (MDB), mas foi barrada pelo Banco Central. A instituição financeira foi liquidada na mesma data da prisão de Vorcaro, no âmbito da Operação Compliance Zero.

Fundos suspeitos e operações sem lastro

A análise do BRB começa apontando um aumento de capital do banco realizado usando fundos suspeitos ligados ao Master e à Reag. A maior parte desses fundos havia sido criada pouco tempo antes das transações com o BRB:

  • Borneo FIP Multiestratégia: criado em 4 de julho de 2024
  • Delta FIP: criado em 5 de julho de 2024
  • Verbier FIP Multiestratégia: criado em 8 de agosto de 2023

As datas coincidem com o período de aumento de capital do Banco de Brasília, quando os fundos compraram ações e se tornaram acionistas do banco. O documento questiona especificamente o fato de esses fundos terem comprado volumes de ações maiores que seu próprio patrimônio declarado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Estruturas complexas e garantias questionáveis

O BRB descobriu que as carteiras de crédito adquiridas do Master não pertenciam diretamente a Daniel Vorcaro, mas sim a uma empresa chamada Tirreno, em uma espécie de revenda não informada anteriormente. Quando o Banco Master começou a substituir as garantias atreladas a essas carteiras, o BRB constatou que os fundos usados como nova garantia também não tinham lastro adequado.

Os documentos citam estruturas como:

  • FIP Multiestratégia Trevi
  • FIP Multiestratégia Strelitzia
  • FIP SH – Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia

Em alguns casos, o comunicado descreve os fundos como uma estrutura em cadeia – "fundos investindo em fundos" – o que dificulta a identificação dos investidores finais e a avaliação do risco efetivo dos ativos.

Operações padronizadas e repetidas

Nos comunicados enviados ao Coaf, o BRB destacou um conjunto de quatro operações de crédito com estrutura praticamente idêntica, cada uma envolvendo R$ 300 milhões em direitos creditórios. As operações estavam ligadas às empresas:

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar
  1. Brain Realty Consultoria e Participações Imobiliárias
  2. Revee Real Estate Venues e Entertainment Participações
  3. FDC Empreendimentos, Administração e Participação
  4. iFly Brazil Indoor Skydiving

Em cada caso, o Banco Master concedeu um crédito de cerca de R$ 458,6 milhões por meio de Cédula de Crédito Bancário (CCB), sendo que R$ 300 milhões foram oferecidos ao BRB através da cessão de direitos creditórios. As garantias eram cotas de fundos de investimento criados pouco antes da concessão dos empréstimos.

Inconsistências e beneficiários incompatíveis

O relatório também aponta inconsistências em diferentes tipos de ativos oferecidos como alternativa às carteiras originalmente compradas pelo BRB. Uma das operações analisadas envolve a empresa Gran Viver Urbanismo, em proposta estimada em cerca de R$ 213 milhões.

Segundo o BRB, dois dos beneficiários finais ligados à operação – Natan Aparecido Santos Barros e Everton Mendonça Pereira – aparecem em bases públicas como beneficiários do auxílio emergencial pago durante a pandemia de Covid-19. O documento aponta que a renda presumida de Natan Aparecido Santos Barros registrada em bases de dados consultadas pelo banco era de até R$ 1,50, valor completamente incompatível com uma operação de R$ 213 milhões.

Contexto investigativo

A Reag também foi alvo da Operação Compliance Zero, a mesma que investiga o Master e que levou Vorcaro de volta à prisão. A suspeita dos investigadores é que a gestora atuou na estruturação e administração de fundos suspeitos de movimentar recursos de forma atípica, inflar resultados e ocultar riscos, com indícios de fraude e lavagem de dinheiro.

Em janeiro, o Banco Central decretou a liquidação da Reag Investimentos, fechando o ciclo de uma série de operações que, segundo as investigações, renderam mais de R$ 440 milhões em lucros para Daniel Vorcaro através de esquemas financeiros complexos e questionáveis.