Banco Master financiou maior aquisição de minerais críticos do Brasil, revelam documentos
O Banco Master, instituição financeira controlada por Daniel Vorcaro, financiou a maior aquisição de áreas de minerais críticos já registrada no território brasileiro. Documentos obtidos pela Folha de S.Paulo indicam que a empresa 3D Minerals, vencedora de 116 lotes em leilão da Agência Nacional de Mineração realizado em agosto de 2024, contou com aporte direto da instituição financeira.
Empresa recém-criada arremata área gigantesca
Criada apenas 45 dias antes do leilão, a 3D Minerals arrematou áreas que, somadas, ultrapassam o tamanho do Distrito Federal. O direito minerário dessas regiões passou a ser investigado pelo Tribunal de Contas da União após reportagem publicada no ano passado. Em novembro de 2024, o Banco Master concedeu empréstimo à 3D Minerals, tendo como garantia metade das ações da empresa.
O recurso foi utilizado para quitar uma dívida milionária assumida pela companhia poucos meses depois de vencer o leilão. Com sede em um pequeno escritório em Belo Horizonte e capital social de apenas R$ 5 mil, a 3D Minerals conseguiu controlar impressionantes 6.462 km² em áreas estratégicas para exploração de minerais críticos.
Controvérsias e conexões empresariais
No mesmo leilão, a empresa se envolveu em outra controvérsia ao obter autorização da ANM para alterar o valor de um lance após a abertura dos envelopes. Após a revelação do caso, o TCU determinou o cancelamento da proposta. A 3D Minerals foi fundada por Eduardo e Daniel Wanderley, integrantes de uma tradicional família do setor de construção civil em Belo Horizonte.
Desde o ano passado, a reportagem tenta contato com os sócios, mas não obteve resposta. Questionamentos recentes sobre a relação com o Banco Master também não foram respondidos. As conexões entre Vorcaro e a família Wanderley vão além da 3D Minerals.
Documentos revelam uma rede de negócios envolvendo mineração, setor alimentício e até sociedade em aeronave executiva. Um fundo de investimento chamado Victoria Falls, estruturado no ecossistema do Banco Master, foi utilizado para organizar participações societárias e injetar recursos em empresas ligadas aos Wanderley.
Estrutura complexa de investimentos
Em maio de 2022, o fundo criou a holding 5W Participações, com capital social de R$ 10 milhões, voltada principalmente ao setor mineral. Embora o fundo controlasse formalmente a 5W, a gestão era exercida por cinco membros da família Wanderley. O Victoria Falls era administrado pelo Master, com carteira gerida pela Smart Agro Investimentos, ligada a executivos também associados à Reag Investimentos.
Tanto o Master quanto a Reag tiveram operações liquidadas pelo Banco Central sob suspeitas de fraudes. Outros documentos mostram que Fabiano Zettel, pastor e cunhado de Vorcaro, mantém sociedade com Saulo Wanderley Filho em uma aeronave modelo Falcon 2000, avaliada entre US$ 6 milhões e US$ 10 milhões. Zettel foi alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal.
Expansão no setor mineral e liquidação
O avanço do grupo na mineração incluiu ainda participação na Taquaril Mineração, conhecida como Tamisa, responsável por um polêmico projeto na Serra do Curral, em Minas Gerais. Em determinado momento, o ativo chegou a representar mais de 90% do capital da mineradora nos balanços do fundo.
Em setembro de 2025, com a liquidação do fundo ligado ao Master, as cotas da 5W foram transferidas integralmente para integrantes da família Wanderley. Já a 3D Minerals permanece sob controle de Daniel e Eduardo Wanderley. O Victoria Falls também participou da holding H4ALL, voltada ao setor de alimentos saudáveis, mas deixou o negócio no mesmo período, repassando as cotas aos sócios da família.
Histórico do fundo e situação processual
O fundo teve origem em 2010, quando era denominado FIP Cowan e estava vinculado à construtora dos Wanderley. Ao longo dos anos, mudou de nome e de gestores até integrar a estrutura do Banco Master e ampliar sua atuação para outros setores. Em agosto do ano passado, o Ministério Público junto ao TCU solicitou a suspensão das tratativas relacionadas às 116 áreas vencidas pela 3D Minerals.
O relator do caso, ministro Aroldo Cedraz, negou a cautelar e determinou diligências. O processo segue em análise técnica e ainda não foi julgado pelo plenário. A família Wanderley, Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel e o Banco Master não se manifestaram até a publicação desta reportagem.
Declaração da Polícia Federal
Em entrevista a jornalistas sobre balanço das gestões da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal, o diretor da PF afirmou que o caso Master 'vem de outras gestões' no Banco Central. A declaração foi feita em 10 de fevereiro de 2026, destacando que as investigações têm origem em períodos anteriores da administração do BC.



