Advogado de Lulinha ataca Polícia Federal por investigação criativa e vazamentos criminosos
O advogado Marco Aurélio Carvalho, coordenador do grupo Prerrogativas e amigo do presidente Lula (PT), fez duras críticas ao trabalho da Polícia Federal na defesa de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do mandatário, que está sob investigação por suposta ligação com fraudes no INSS. Carvalho, que já foi cotado para chefiar o Ministério da Justiça, órgão ao qual a PF é subordinada, acusou a corporação de usar criatividade excessiva na apuração e de promover vazamentos de informações, que ele classifica como criminosos.
Críticas à investigação e confiança na PF
Em entrevista à Folha de S.Paulo na sexta-feira (20), Carvalho afirmou que confia na Polícia Federal e em seu diretor-geral, Andrei Rodrigues, mas destacou que integrantes da instituição não estão agindo de forma republicana. Ele comparou os governos de Lula e Jair Bolsonaro (PL), dizendo que, na gestão anterior, houve tentativas de interferência na PF, o que não ocorre atualmente, mas que alguns policiais federais estão reproduzindo episódios da Lava Jato. "A Polícia Federal, como instituição de Estado, e como toda instituição, está em disputa. E essa disputa é reflexo da disputa que acontece na própria sociedade, ainda dividida pelo ódio e pela intolerância", declarou o advogado.
Carvalho atua na defesa de Lulinha junto com o advogado Guilherme Suguimori e expressou certeza de que Rodrigues tomará medidas enérgicas para preservar a credibilidade da PF. "Tenho certeza absoluta, pelo bem da integridade da própria corporação, que o Andrei [Rodrigues] vai tomar providências bastante enérgicas para se livrar desses elementos que colocam em xeque a credibilidade da instituição. Confio nele. O presidente Lula devolveu independência e autonomia para a Polícia Federal, e ela precisa usar essa independência e autonomia com responsabilidade", afirmou.
Negativas sobre repasses e viagem a Portugal
O advogado negou veementemente que Lulinha tenha recebido qualquer valor do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, envolvido em um esquema de descontos indevidos em aposentadorias. "Não há qualquer tipo de repasse, de forma direta ou indireta. Tanto é que a Polícia Federal está tentando estabelecer linhas, digamos, pirotécnicas, exageradamente criativas, num delírio persecutório que parece não ter fim e nos remete ao que houve de pior no nosso sistema de Justiça. Eles atiram a flecha e pintam o alvo. Então, assim, não deixam de errar. Começaram pelo fim: querer condenar", disse Carvalho. Ele acrescentou: "Ninguém quer que o Fábio esteja acima da lei. Mas não podemos permitir que ele seja tratado como se estivesse abaixo dela."
A PF investiga se Lulinha recebeu valores do Careca do INSS por meio da empresária Roberta Luchsinger, alvo de uma operação em dezembro. Os três se conhecem, e Lulinha viajou a Portugal em 2024 para visitar um projeto de canabidiol de Careca, a convite de Luchsinger. Uma das suspeitas é que Lulinha receberia uma mesada de R$ 300 mil através da amiga. Carvalho rebateu, dizendo que Lulinha não tinha conhecimento das atividades ilícitas do lobista e fez a viagem por ter um familiar com epilepsia que usa canabidiol. "Nós dissemos isso de forma voluntária e espontânea ao ministro André Mendonça, mesmo antes de sermos inquiridos a respeito", explicou.
Contestações sobre movimentação financeira e mudança para a Espanha
Sobre a movimentação financeira de R$ 19,5 milhões em contas de Lulinha ao longo de quatro anos, noticiada pelo Coaf, Carvalho contestou, argumentando que o órgão não separa entradas e saídas e duplica valores em transferências entre contas do mesmo titular. Segundo ele, o valor real seria de cerca de R$ 5 milhões em quatro anos, provenientes de herança de Marisa Letícia e empréstimos feitos a Lula quando estava preso.
A suspeita de que Lulinha mudou-se para a Espanha no ano passado para uma possível evasão do Brasil também foi rechaçada. O advogado afirmou que a mudança para Madri estava sendo planejada desde 2023, um ano antes das investigações, e que Lulinha abriu uma empresa na Espanha em janeiro deste ano por motivos legítimos.
Defesa de Luchsinger e comparações políticas
A defesa de Roberta Luchsinger enviou uma petição ao STF, obtida pela Folha, questionando vazamentos de informações. O documento sustenta que transferências da empresa dela para uma agência de viagens ocorreram entre dezembro de 2023 e junho de 2024, enquanto o contrato com a empresa de Careca só foi firmado em dezembro de 2024, invalidando a premissa de lavagem de dinheiro.
Carvalho também fez paralelos políticos, citando declarações de Lula sobre investigar seu filho se necessário. "Eis aí a diferença entre um estadista, o presidente Lula, e um miliciano, o ex-presidente Jair Bolsonaro: um interferindo em investigações para blindar a família, o outro pedindo ao filho que se coloque à disposição do STF", disse, em referência a suspeitas de interferência na PF no caso das rachadinhas envolvendo o senador Flávio Bolsonaro.
Por fim, Carvalho sugeriu que a exposição forçada pelo inquérito pode ter um efeito paradoxal. "Se antes ele era um problema, hoje ele pode ser uma solução [para Lula]", afirmou. "Se a oposição achava que tinha uma bala de prata, talvez agora tenha se dado conta de que tem uma bala de festim." A reportagem procurou a assessoria de imprensa da Polícia Federal para comentar as declarações, mas não obteve resposta.



