Polícia investiga possível destruição de provas em caso de morte por intoxicação em academia de SP
A Polícia Civil de São Paulo está investigando se o proprietário da academia onde a professora de natação Juliana Bassetto faleceu após uma aula apagou deliberadamente mensagens do WhatsApp trocadas com o funcionário responsável pela manutenção da piscina. O caso, que ocorreu no último sábado (7), na Academia C4 Gym, na Zona Leste da capital paulista, ganhou novos contornos com a suspeita de tentativa de ocultação de evidências.
Instruções à distância e falta de qualificação técnica
Segundo o delegado Alexandre Bento, as conversas recuperadas indicam que Severino José da Silva, de 43 anos, recebia orientações diretas dos donos do estabelecimento sobre a quantidade e o uso de produtos químicos, mesmo sem possuir qualquer qualificação técnica para a função. "Ele recebia uma orientação via WhatsApp. Ele mandava mensagem, fazia medição da piscina, e um dos sócios da empresa fazia as orientações, dizia 'Olha, põe a porção tal de cloro'. Tudo a distância, sem nenhum contato presencial", afirmou o delegado.
Bento destacou que Severino declarou não ser habilitado e nunca ter realizado curso de piscineiro. A principal hipótese das autoridades é que a manipulação inadequada desses produtos em um ambiente fechado e com ventilação insuficiente tenha provocado a liberação de gases tóxicos, levando à intoxicação fatal da professora.
Suspeita de apagamento de mensagens e depoimento do funcionário
O delegado revelou que há indícios de que o proprietário tenha deletado parte das mensagens trocadas com Severino. "O relato que temos é que o proprietário apagou parte das mensagens que foram trocadas [com Severino] pra tentar se escusar da responsabilidade das instruções. Estamos tentando a localização e apresentação deles", declarou Bento.
Nesta terça-feira (10), Severino José da Silva prestou depoimento acompanhado de sua advogada, Bárbara Bonvicini. A defesa argumentou que ele apenas cumpria ordens superiores. "O meu cliente é apenas um colaborador da academia, ele foi uma ferramenta e obedeceu a ordens", afirmou a advogada.
Em seu testemunho, Severino contou que, há aproximadamente um ano, quando a piscina apresentou problemas, um técnico qualificado realizou o serviço para regularizar a água. Esse profissional teria oferecido seus serviços de forma permanente, mas o dono da academia recusou, optando por manter a responsabilidade nas mãos de Severino.
Riscos da manipulação incorreta de produtos químicos
O professor de química Reinaldo Bazito, da Universidade de São Paulo (USP), explicou os perigos associados à mistura inadequada de substâncias utilizadas no tratamento de piscinas. Segundo ele, o cloro granulado diluído em água, quando usado conforme as especificações do fabricante, não gera gases tóxicos. O problema surge quando há combinação com outros produtos de maneira não recomendada.
"Nesse caso, ocorre uma borbulha, que é a produção de cloro gasoso, altamente tóxico", alertou Bazito. "Se a gente gerar em quantidade excessiva na piscina, ele pode causar intoxicação pra pessoa, danos pulmonares permanentes e até a morte".
Uma resolução do Conselho Federal de Química estabelece que piscinas de uso coletivo, como as de academias, clubes e condomínios, devem contar com a responsabilidade técnica de um profissional qualificado da área. O conselho reforça que, sempre que houver tratamento químico da água, a pessoa encarregada precisa ter treinamento básico em química.
Efeitos graves da inalação de cloro
André Apanavicius, pneumologista do Hospital Sírio-Libanês, detalhou os impactos da inalação de cloro no organismo humano. Quando uma pessoa respira essa substância, ela reage com a água presente nas mucosas do nariz, dos olhos, da garganta e das vias aéreas pulmonares.
"Quando esse cloro se liga com essa água, ele vira um ácido, que é o ácido clorídrico, o ácido hipocloroso, mas, de qualquer forma, uma substância irritante. E daí vão começar a aparecer alguns sintomas dessa irritação", explicou o médico.
A gravidade dos sintomas varia conforme a quantidade de cloro inalada. "Você pode ter casos mais leves, como só uma irritação local, até quadros muito mais graves. Além de ele poder inflamar as vias aéreas do pulmão, ele pode levar ao extravasamento de líquido do pulmão por causa dessa inflamação gerada. E isso pode ocasionar uma morte eventualmente, se não for bem tratado", concluiu Apanavicius.
A polícia continua as investigações para apurar todas as responsabilidades no caso, que expõe falhas graves na manutenção de piscinas em ambientes de uso coletivo e levanta questões sobre a fiscalização desses espaços.



