Influencer usa IA para sexualizar jovens evangélicas em igrejas; polícia investiga
Influencer usa IA para sexualizar jovens evangélicas

A Polícia Civil de São Paulo investiga um influenciador digital acusado de utilizar inteligência artificial (IA) para manipular fotografias de jovens evangélicas e inseri-las, sem autorização, em vídeos com conteúdo sexualizado dentro de igrejas da Congregação Cristã do Brasil (CCB). O caso ganhou repercussão após uma das vítimas, uma estudante de 16 anos, denunciar o suspeito.

O que é deepfake?

Deepfake é uma técnica que emprega inteligência artificial para criar ou alterar fotos, vídeos ou áudios de forma realista, fazendo parecer que uma pessoa fez ou disse algo que nunca aconteceu. No caso, o influenciador Jefferson de Souza, de 37 anos, que se apresenta como humorista, imitador de Silvio Santos e borracheiro, é suspeito de usar essa tecnologia para erotizar imagens de mulheres e adolescentes.

As publicações foram feitas no YouTube, onde ele mantém o canal "Humor do Crente", com mais de 11 mil inscritos, além de perfis no Instagram, Facebook e TikTok, onde se identifica como "Silvio Souza", em alusão ao apresentador Silvio Santos, e reúne aproximadamente 37 mil seguidores.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Investigação e denúncias

O inquérito foi instaurado em fevereiro, após uma adolescente de 16 anos e seus pais procurarem a 8ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), em São Mateus, Zona Leste de São Paulo. Eles acusam Jefferson de alterar e erotizar a imagem da jovem. A foto original foi tirada em 2025, em frente ao altar da CCB do Brás, no Centro de São Paulo. Na ocasião, a jovem, então com 15 anos, usava vestido abaixo dos joelhos e salto alto, vestimenta comum nos cultos.

No vídeo criado pelo influenciador, além da estudante, foram inseridas outras três jovens, que ela não conhece e cuja existência real não foi confirmada. As quatro aparecem com os braços erguidos e bocas abertas, sendo que duas usam minissaias, roupas incomuns nas igrejas da CCB. "Ele pegou a minha foto sem autorização e fez uma montagem com inteligência artificial, com as mulheres sensualizando na frente e eu junto a elas", relatou a vítima.

Inicialmente, o caso foi registrado como simulação de cena de sexo ou pornografia com menor de 18 anos por meio digital, conforme o artigo 241-C do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), com pena de 1 a 3 anos de reclusão, além de multa. Com o avanço das investigações, outras vítimas, adolescentes e adultas, foram identificadas, e Jefferson passou a ser investigado também por difamação.

"A gente está investigando esse caso de deepfake. Houve uma simulação dessas imagens dessas meninas, algumas delas adolescentes", afirmou a delegada Juliana Raite Menezes, da 8ª DDM. A polícia analisa diversos vídeos postados pelo influenciador, que geralmente usa o hino da CCB como música de fundo. A delegada pede que outras possíveis vítimas procurem a DDM.

Relatos de outras vítimas

Outra jovem também relatou ter sido alvo do mesmo tipo de montagem. No caso dela, o influenciador usou uma foto em que ela aparece de blusa de mangas compridas e saia longa, apoiada no banco da igreja, e criou um novo vídeo. Nele, inseriu imagens de uma outra jovem com minissaia, além de Silvio Santos, vestido com o tradicional terno e microfone. Jefferson aparece comentando e criticando as roupas usadas pelas jovens.

Em algumas gravações, ele veste uma camiseta com o símbolo do SBT, fazendo uma paródia com as letras da emissora ao se definir como "Sou Borracheiro, Trabalhador". O influenciador também já inseriu imagens do apresentador Ratinho. Ele afirma ser membro da CCB e faz comentários depreciativos sobre mulheres que usam véu branco, tradicional na igreja. "Já fiz várias denúncias contra essa conta", disse a vítima, que também acionou a Justiça.

Impacto emocional

A estudante de 16 anos afirma que tenta superar o trauma. "Eu sou muito envergonhada, então não queria ter sido exposta. Eu tomo cuidado e também fico com medo disso afetar meu convívio social", disse. Ela conta que a foto foi feita apenas como registro de um momento de fé. "Hoje em dia é bem comum tirar foto de si próprio ou da igreja para falar que foi ao culto. Eu não tirei mais nenhuma fotografia. Não tem mais nenhuma e me gerou preocupação."

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Os pais da jovem também relatam o impacto emocional. "Do mesmo jeito que eu senti que fui ferida por mexer com a minha filha, eu também senti isso com as outras meninas", lamenta a mãe. "Tira o sono." O pai acrescenta: "Havia uma quantidade enorme de vítimas. Não só a minha filha. [Ele usou] manipulação [de foto] com [vídeo de] conotação sexual que se agrava ainda mais com menores de idade... isso tem que cessar." A família entrou com ação na Justiça pedindo indenização por dano moral.

O que dizem os especialistas

Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que o uso de IA não reduz a responsabilidade de quem cria ou divulga esse tipo de material. "Em casos como o do vídeo em questão [de deepfake com as evangélicas], quem o produziu com a ajuda de IA é legalmente responsável pelo conteúdo que produziu, assim como as pessoas que curtem e compartilham, ajudando a disseminá-lo", disse a advogada Nuria López.

Para a professora Laura Hauser, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o foco não deve ser o comportamento das vítimas. "Não é a vítima que tem que se cuidar. O predador que deve ser intimado a melhorar." Segundo ela, os vídeos misturam imagens das vítimas com cenas de mulheres com pouca roupa e conotação sexual, com o objetivo de difamar. "Não dá para o investigado dizer que não tinha a intenção de ofender se as ofensas forem claras."

Sofia Schurig, pesquisadora da SaferNet Brasil, ONG que atua na defesa dos direitos humanos na internet, explica a origem do termo. "Deepfake é uma palavra que surge em 2017, a partir de um usuário do Reddit que começou a publicar montagens com IA generativa de celebridades em cenas de nudez. Ele publicou uma muito famosa da atriz Gal Gadot."

Juliana Cunha, diretora da SaferNet, destaca que casos como este tendem a crescer com o avanço da tecnologia. "É muito importante que vítimas dessa violência não se sintam culpadas. Sem dados, a gente não consegue influenciar mudanças de políticas públicas e de legislação." A organização conduz, há pouco mais de um ano, uma pesquisa sobre o uso ilegal de IA para gerar imagens de nudez e sexo envolvendo adolescentes e mulheres.

Posicionamento do influenciador

Em depoimento à polícia, por carta precatória, Jefferson admitiu usar fotos de jovens evangélicas da CCB e ferramentas do TikTok para animar e manipular as imagens, transformando-as em vídeos. Sobre a adolescente de 16 anos, afirmou desconhecer que se tratava de uma menor e disse que, "em razão do porte físico", acreditou que fosse "uma pessoa adulta". Negou ter vinculado a imagem da adolescente a fotografias de mulheres com pouca vestimenta ou a qualquer conteúdo sexualizado ou pornográfico.

Ele confirmou ser responsável pelos perfis nas redes sociais e disse que produz "conteúdo humorístico", com imitações e críticas relacionadas à igreja da qual é fiel. Segundo Jefferson, "a crítica associada à postagem representava sua opinião pessoal de que determinadas fotografias não seriam adequadas dentro da doutrina da igreja". Afirmou ainda que acreditava que o uso da imagem não causaria problemas por já estar disponível na internet e "negou qualquer intenção ofensiva específica contra a adolescente ou contra outras pessoas fora do contexto religioso".

Em um vídeo publicado no TikTok, Jefferson comentou o comportamento de jovens na igreja e explicou como produz os conteúdos. "E a menina começa até fazer pose ali, né? Como se fosse tirar uma selfie ou fazer um vídeo. Você pode ver que a maioria das irmãzinhas que vai tirar foto... é dentro da igreja, elas tiram de costa. Algumas mostram o rosto, mas mostrando outras partes também. E hoje em dia as roupas que as irmã usam são roupas que marcam o corpo", criticou. "No meu caso, eu posto os vídeos aqui quando comecei a fazer a brincadeira com a voz de Silvio Santos. Porque eu gravo os vídeos que eu falo da Congregação. Que eu coloco a imagem da CCB aqui atrás, que eu canto, que eu brinco. Aí eu tenho um canal. Pego a foto, as irmãs postando foto de costa, aí eu jogo na IA, a IA faz dançar."

Em outro vídeo, postado no domingo de Páscoa, dia 5 de abril, Jefferson pediu "desculpas" aos "irmãos" da CCB pelos vídeos que postou com críticas à igreja. "Eu quero pedir desculpa, pedir perdão publicamente pelos vídeos que eu andei postando. Eu confesso que errei na minha forma de falar." Em nenhum momento ele mencionou os deepfakes feitos com as adolescentes e mulheres. "Eu peço perdão a todos que se sentiram ofendidos. Eu prometo ser mais cauteloso."

O que dizem os citados

O SBT foi procurado para informar se Jefferson teve vínculo com a emissora e se adotará alguma medida pelo uso do logotipo na deepfake, mas não respondeu até a última atualização. A Congregação Cristã do Brasil informou, em nota, que não possui registro formal de membros e que apoia a adoção de medidas legais cabíveis por parte das autoridades. "Estamos de pleno acordo com as medidas cabíveis de justiça, que se fizerem necessárias, preservando a individualidade e, sobretudo, o respeito para com as pessoas."

As plataformas digitais também se manifestaram. O TikTok informou adotar tolerância zero para exploração sexual infantil e remover conteúdos desse tipo. O YouTube disse que retirou vídeos que violavam suas diretrizes. A Meta, responsável por Instagram e Facebook, não comentou. Algumas das postagens misóginas feitas por Jefferson contra as evangélicas foram retiradas recentemente por ele ou pelas empresas de tecnologia.