O Ministério Público do Paraná (MP-PR) identificou indícios de crime de omissão de socorro no caso do desaparecimento do jovem Roberto Farias Tomaz, de 19 anos, que passou cinco dias perdido na mata após se desorientar na descida do Pico Paraná no início de janeiro. A conclusão da 2ª Promotoria de Justiça de Campina Grande do Sul contraria o entendimento da Polícia Civil, que havia arquivado o inquérito por não verificar a ocorrência de ilícito penal.
O desenrolar do caso e a divergência entre MP e Polícia
Roberto desapareceu no dia 1º de janeiro de 2026, após iniciar a trilha no dia anterior com o objetivo de ver o primeiro nascer do sol do ano no ponto mais alto do Sul do Brasil. Acompanhado da amiga Thayane Smith, também de 19 anos, ele completou a subida, mas, durante a descida, separou-se do grupo. Sozinho, percorreu cerca de 20 quilômetros seguindo o rio Cacatu até chegar a uma fazenda em Antonina na segunda-feira, dia 5, onde finalmente pediu ajuda.
Enquanto a Polícia Civil, após ouvir testemunhas, concluiu que não houve infração – alegando que Roberto teria passado mal apenas na subida e estava bem na descida –, o MP-PR construiu uma narrativa diferente. Para os promotores, Thayane cometeu omissão de socorro ao deixar Roberto para trás conscientemente, mesmo sabendo que ele estava debilitado.
Os argumentos do Ministério Público para a acusação
Na manifestação, o órgão ministerial detalha que a conduta da jovem apresenta dolo, ou seja, intenção voluntária. Ela teria ciência do estado de vulnerabilidade da vítima, que havia vomitado durante a subida e tinha dificuldade para caminhar, além das condições adversas do ambiente, com frio, chuva e neblina. "Ainda assim, [Thayane] optou reiteradas vezes por deixá-lo à própria sorte", afirma o MP.
O documento ressalta que, mesmo após ser alertada por outros montanhistas sobre os riscos, a jovem demonstrou "interesse apenas em seu próprio bem-estar físico" e não tomou providências para auxiliar nas buscas. O crime de omissão de socorro, conforme o Código Penal, configura-se quando alguém deixa de prestar assistência a pessoa em perigo grave e iminente, podendo fazê-lo sem risco pessoal.
Proposta de transação penal e busca intensiva
A Promotoria pediu o envio do caso ao Juizado Especial Criminal e propôs uma transação penal. Pela proposta, Thayane Smith deverá cumprir três medidas:
- Pagamento de três salários mínimos (R$ 4.863) a Roberto, a título de reparação por danos materiais e morais;
- Pagamento de R$ 8.105 ao Corpo de Bombeiros de Campina Grande do Sul, que atuou nas buscas por cinco dias;
- Prestação de serviços comunitários por três meses, com cinco horas semanais, junto ao Corpo de Bombeiros.
As operações de resgate, iniciadas ainda no dia 1º de janeiro por volta das 13h45, mobilizaram bombeiros, voluntários e grupos especializados como o Corpo de Socorro em Montanha (Cosmo) e o Clube Paranaense de Montanhismo (CPM). Foram utilizados drones, rapel e câmeras térmicas na procura. Após ser encontrado, Roberto foi levado ao Hospital Municipal de Antonina, onde passou por reidratação e exames, recebendo alta no dia 6 de janeiro.
O caso reacendeu discussões sobre segurança e sinalização em trilhas de alto grau de dificuldade, como a do Pico Paraná, que tem 1.877 metros de altitude e cujo percurso completo dura cerca de 13 horas. O governo do estado prometeu reforçar a sinalização na região.
