Liquidação da Reag expõe ligações perigosas e lavagem no mercado financeiro
Reag e Master: ligações perigosas e lavagem de dinheiro

O processo de liquidação da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A., antiga Reag Trust, realizado pelo Banco Central na quinta-feira, 15 de janeiro de 2026, trouxe à tona um emaranhado de relações que explica a forte reação do mercado financeiro contra propostas do Ministério da Fazenda. O foco da polêmica era o fim da isenção tributária sobre Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e Letras de Crédito Agropecuário (LCAs).

O sumiço do ranking e os fundos suspeitos

Com a liquidação determinada pelo BC, a CBSF/Reag foi excluída do ranking de gestoras de investimento da Anbima referente a novembro. O levantamento mensal é liderado pela BB Asset Management, com R$ 1.768,7 bilhões, seguida pelo Itaú (que somaria R$ 1.970 bilhões com a Intrag DTVM) e pelo BTG Pactual, com R$ 909,3 bilhões. A Reag ocupava uma posição entre o Santander e a BNY Mellon DTVM.

O primeiro grande baque para a gestora veio em setembro, com a Operação Carbono Oculto da Polícia Federal, deflagrada em agosto. A investigação revelou que cerca de 12 dos 40 fundos da Reag, que movimentavam aproximadamente R$ 350 bilhões, estavam vinculados a esquemas de lavagem de dinheiro do crime organizado. A revelação expôs uma verdade inconveniente: quanto mais títulos de renda fixa puderem ser negociados sem impostos, mais ágeis e fáceis se tornam as operações de branqueamento de capitais.

O alarme das fintechs e as interligações perigosas

Outro dado que salta aos olhos é o patrimônio de R$ 741 bilhões dos Fundos de Investimento de Direitos Creditórios (FDICs) ao final de 2025. Este cenário se conecta ao crescimento exponencial das Instituições de Pagamento, impulsionado pela abertura do mercado financeiro às fintechs durante a gestão de Roberto Campos Neto no BC.

Não por acaso, o setor reagiu de forma virulenta quando a Receita Federal determinou, em dezembro de 2024, que instituições financeiras, fintechs e cartões de crédito deveriam informar operações acima de R$ 5 mil a partir de janeiro de 2025. Sob o pretexto de burocracia, a reação encobria, na verdade, a defesa de operações opacas que precisam ser combatidas pelo fisco. O princípio da isonomia tributária não permite que o mercado conviva com práticas lesivas.

Os escândalos do Master e as interferências na Justiça

As revelações sobre o Banco Master são ainda mais alarmantes. Uma auditoria da KPMG descreveu a incorporação ao grupo de Daniel Vorcaro de empresas e investimentos de liquidez difícil e avaliação complexa, marcadas pela opacidade. Há informações sobre triangulação de empréstimos e até um empréstimo de alto valor da Reag a um técnico da seleção de futebol da Índia, fato que pode ser explicado pelas muitas relações do fundador da Reag, João Carlos Mansur, com clubes como Palmeiras e Corinthians.

As relações do Banco Master com empresários e políticos ampliam o tom de alerta. Diante deste quadro, torna-se estranha a atuação restritiva de duas instâncias máximas de controle: o Tribunal de Contas da União (TCU), na figura do ministro Jonathan de Jesus, e o Supremo Tribunal Federal (STF), com o ministro relator Dias Toffoli. Ambos têm dificultado a coleta de provas e novas diligências da Polícia Federal, quase paralisando as investigações.

Essa postura se assemelha a tentativas anteriores de amarrar a PF, como o projeto do deputado federal Guilherme Derrite que exigia autorização prévia de governos estaduais para suas operações. Tanta burocracia e restrição só beneficiam quadrilhas organizadas, facilitando o sumiço de vestígios dos crimes financeiros.

Um sinal positivo na economia

Em meio a este turbilhão de más notícias, um indicador econômico trouxe alívio. O IBC-Br, considerado o PIB do Banco Central, cresceu 0,7% em novembro, interrompendo uma sequência de sete meses de declínio. O resultado surpreendeu as previsões do mercado, que esperavam uma alta entre 0,3% e 0,4%. O setor de Serviços, puxado pelo comércio, foi o principal responsável pelo crescimento, com alta de 0,6%, enquanto a indústria encolheu 0,8%. Há expectativas de que a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil possa impactar positivamente os dados de dezembro e janeiro.