PCC e Comando Vermelho: Das Prisões às Máfias Globais com Movimentação Bilionária
PCC e CV: de facções prisionais a máfias globais bilionárias

PCC e Comando Vermelho: Das Prisões às Máfias Globais com Movimentação Bilionária

O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), outrora grupos prisionais brasileiros, transformaram-se em organizações mafiosas complexas e globais. Com a ausência do Estado em diversas regiões, esses grupos ampliaram seus tentáculos e hoje movimentam uma rede financeira bilionária, dominando o tráfico de drogas e armas enquanto lavam dinheiro em escala internacional.

Influência das Máfias Italianas e Evolução do PCC

No início da década de 1990, integrantes da temida Camorra napolitana, uma das máfias italianas, estavam no sistema prisional paulista e influenciaram diretamente a formação do PCC. Antonio Nicaso, especialista italiano com mais de 40 livros sobre organizações mafiosas, explica que o PCC aprendeu com as máfias italianas a estrutura criminal, o simbolismo, a violência ritual e, principalmente, a importância das relações com o poder.

Em menos de 40 anos, o PCC evoluiu de um grupo de autodefesa em presídios de São Paulo para uma organização mafiosa de alcance global. Lincoln Gakiya, promotor de Justiça do Ministério Público de São Paulo, considera o PCC como a primeira organização criminosa de matiz mafiosa no Brasil, mesmo sem uma legislação antimáfia específica no país.

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A atuação do PCC mudou significativamente ao longo dos anos. Se antes impunha medo através de ataques violentos, como os ocorridos em 2006 em cidades paulistas, hoje sua principal preocupação é a arrecadação financeira. Segundo o promotor Gakiya, a movimentação financeira do grupo gira em torno de 2 bilhões de dólares, sendo 80% provenientes da comercialização de cocaína para a Europa e 20% do tráfico interno.

Expansão Internacional e Parcerias Criminosas

O PCC estabeleceu uma "parceria comercial" com a máfia 'Ndrangheta, originária da Calábria italiana, para o tráfico de cocaína para a Europa. A droga produzida em países como Colômbia, Peru e Bolívia é transportada pelo Brasil, especialmente a partir do Mato Grosso, até portos como Santos (SP) ou Paranaguá (PR) para travessia do Atlântico.

Estima-se que o PCC tenha aproximadamente 40 mil membros em 29 países, incluindo Brasil, Argentina, Estados Unidos, Portugal e Japão. A organização também mantém alianças com grupos sul-americanos como o Tren de Aragua, da Venezuela, que forneceu armamento ao PCC em troca de exploração do tráfico e prostituição em Roraima.

A Operação Carbono Oculto, deflagrada em setembro de 2025, revelou a força econômica do crime organizado. O PCC começou a atuar em postos de combustíveis no litoral paulista em 2010 e hoje controla cerca de 300 unidades apenas em São Paulo. Integrantes do grupo também atuam no mercado financeiro através de fintechs para lavagem de dinheiro, além de padarias, setor hoteleiro e outros negócios.

Comando Vermelho: Trajetória e Atuação Mafiosa

O Comando Vermelho (CV), originário nos anos 1970, surgiu de forma similar ao PCC como mecanismo de autodefesa em presídios através de alianças entre criminosos comuns e presos políticos ligados a grupos esquerdistas. Inicialmente envolvido em delitos menores como assaltos e roubos a bancos, o grupo entrou no tráfico de cocaína nos anos 1980, trabalhando com cartéis colombianos.

Um relatório recente da Polícia Federal detalha a relação histórica entre o CV e as extintas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), que remonta a 2001. Atualmente, o CV mantém vínculos com dissidentes das FARC na região amazônica, utilizando rotas fluviais e terrestres na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru para o tráfico de drogas.

Considerado um pouco menor que o PCC, estima-se que o CV tenha cerca de 30 mil membros. O grupo também mantém alianças com a máfia 'Ndrangheta e se especializou no comércio de armas de fogo na América do Sul através do método "formiguinha", onde as armas são desmontadas e entram no país em partes para dificultar a fiscalização.

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Lavagem de Dinheiro e Infiltração Econômica

Dados mostram um crescimento expressivo nas apreensões de fuzis no Brasil: aumento de 28,6% em 2022 em relação a 2021; 32,9% em 2023 comparado a 2022; crescimento de 12,8% em 2024 em relação a 2023; e, até o momento, registro de 1396 fuzis apreendidos em 2025. Cerca de 37% dessas apreensões ocorreram no Rio de Janeiro.

Em abril de 2025, a Polícia Civil do Rio desvendou na Operação Contenção um esquema que movimentou ao menos 6 bilhões de reais em lavagem de dinheiro envolvendo tanto o Comando Vermelho quanto o PCC. As duas maiores organizações criminosas do país uniram-se para operar movimentações financeiras oriundas do tráfico, chegando a criar um banco específico para transferências.

A Polícia Federal alerta que o CV desenvolveu uma sofisticada estrutura de lavagem de dinheiro com uso crescente de empresas de fachada e atividades comerciais aparentemente lícitas. Esse cenário reforça a importância de investigações patrimoniais robustas e integração entre órgãos de controle para enfrentar as facções no campo financeiro e enfraquecer sua capacidade de reinvestimento.

Especialistas concordam que o crescimento dessas organizações criminosas ocorre justamente na ausência do Estado e que seu combate efetivo requer união entre instituições e abordagem integrada que vá além da repressão violenta, focando na desarticulação de suas estruturas econômicas e financeiras.