A Polícia Civil de São Paulo prendeu, nesta terça-feira (13), três homens apontados como integrantes do alto escalão do Primeiro Comando da Capital (PCC). Eles são acusados de mandar matar o ex-delegado-geral da corporação, Ruy Ferraz Fontes, em setembro do ano passado, na Praia Grande, litoral paulista.
Perfil dos presos: criminosos de alto escalão
Os três detidos têm um longo histórico criminal, com mais de 20 anos envolvidos em atividades ilícitas. Segundo a delegada Ivalda Aleixo, diretora do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), eles se distinguem dos executores diretos do crime. "Todos estiveram presos em penitenciárias, são ladrões de banco, envolvidos com a organização criminosa, tráfico, lavagem de dinheiro. Esse nível de atividade criminosa", explicou.
Ela destacou que os presos possuem "um nível muito superior, tanto de maturidade criminal quanto de anos já nessa vida". As investigações do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) confirmaram que os acusados fazem parte da "sintonia restrita" da facção, ou seja, o núcleo central tomador de decisões.
O delegado Clemente Calvo Castilhone Júnior, do Deic, reforçou que os presos, que no passado tinham atuação operacional, hoje estão ligados ao nível decisório. "Esse grupo, os três que foram presos hoje, é o que mais se aproxima do mando, que seria a ligação com os operacionais. São prisões muito importantes", afirmou.
Quem são os acusados e qual seu papel
As prisões ocorreram após a expedição de cinco mandados de prisão temporária e 13 de busca e apreensão em cidades como Jundiaí, Mongaguá, Praia Grande e na capital paulista. Os três capturados são:
Marcio Serapião de Oliveira (Velhote ou MC): Preso no bairro Vila Isa, na Zona Sul de São Paulo. Ele é apontado como integrante do PCC e investigado por dar apoio estratégico e logístico ao crime, incluindo a guarda de veículos e o uso de imóveis de apoio. Tentou fugir durante a abordagem, mas era monitorado por um drone.
Fernando Alberto Teixeira (Azul ou Careca): Capturado em Jundiaí. É considerado um dos responsáveis por articular o mando da ação criminosa, tendo participado do planejamento e da coordenação logística.
Manoel Alberto Ribeiro Teixeira (Manezinho ou Manoelzinho): Preso em Mongaguá. Atuou como principal articulador logístico e operacional, ajudando na fuga dos envolvidos e fornecendo meios materiais. Durante a prisão, foi apreendida uma arma de fogo.
Vingança como motivação principal
As autoridades trabalham com a linha de investigação de que o crime foi uma retaliação do PCC pelo histórico de Ruy Ferraz Fontes no combate à facção. O secretário da Segurança Pública, Nico Gonçalves, foi direto: "É uma retaliação de todos esses assaltantes de banco presos hoje em relação a 2005. Todos eles tiveram contato direto com o Ruy na época, que prendeu eles por roubo a banco. Ficou essa mágoa, uma vingança contra o Ruy".
Essa tese é corroborada pela denúncia do Ministério Público, apresentada em novembro, que aponta que a execução foi ordenada pela "sintonia geral" do PCC. O ex-delegado, que atuou por mais de quatro décadas em unidades como Denarc e Deic, foi um dos responsáveis por divulgar organogramas da facção e, em 2006, pelo indiciamento de sua cúpula, incluindo Marcos Camacho, o Marcola.
Um relatório policial revela que, desde 2019, uma carta manuscrita apreendida da liderança do PCC já "cobra a morte de alguns agentes públicos, dentre eles o doutor Ruy Ferraz Fontes".
Planejamento minucioso e investigações em andamento
O crime foi precedido por um extenso planejamento, que incluiu vigilância da rotina da vítima, montagem de uma cadeia logística com imóveis de apoio, carros de fuga e obtenção de armamentos de alto calibre. Os envolvidos mapearam os deslocamentos de Ruy e organizaram uma estrutura com pontos de apoio em Praia Grande, Mongaguá e São Paulo.
Entre as provas colhidas pela polícia estão impressões digitais em veículos usados no crime, dados extraídos de celulares apreendidos, movimentações financeiras suspeitas e o uso de imóveis como apoio. O Ministério Público já denunciou oito pessoas pela participação no assassinato, incluindo executores e participantes do plano.
As investigações continuam para identificar outros possíveis envolvidos, e as autoridades aguardam agora a análise do Judiciário para o possível recebimento da denúncia e o prosseguimento da ação penal.