Uma delegada recém-empossada no estado de São Paulo foi presa nesta sexta-feira (16) acusada de manter vínculos com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). A prisão de Layla Lima Ayub ocorreu durante uma operação do Ministério Público (MP), que investiga a suposta cooptação da policial pelo grupo.
Cooperação em presídios e vínculos com a facção
Segundo as investigações, Layla teria sido recrutada pelo PCC durante o período em que atuava como advogada em unidades prisionais do estado do Pará. O Ministério Público afirma que ela mantinha relações pessoais e profissionais com integrantes da organização criminosa. A hipótese dos promotores é que o aliciamento ocorreu ao longo do contato com lideranças da facção dentro dos presídios paraenses, especialmente na região de Marabá.
O promotor de Justiça Carlos Gaya, em entrevista coletiva, esclareceu que não há indícios de que o PCC tenha financiado a carreira da delegada. "A hipótese que trabalhamos, neste momento, é a de que ela tenha sido cooptada ao longo do contato com lideranças do PCC dentro dos presídios no Pará", afirmou Gaya.
Atuação irregular após a posse
Layla Lima Ayub tomou posse como delegada da Polícia Civil de São Paulo em 19 de dezembro de 2025, em cerimônia no Palácio dos Bandeirantes. Menos de um mês depois, em 28 de dezembro, ela já estaria atuando de forma irregular. Nesta data, nove dias após a posse, a então delegada defendeu como advogada um dos quatro integrantes do PCC presos em flagrante pela Polícia Militar em Rondon do Pará.
Esta conduta é expressamente proibida pelo Estatuto da Advocacia e por normas estaduais, que vedam a delegados de polícia o exercício da advocacia privada. Na ocasião, ela teria participado de uma audiência de custódia no município de Marabá (PA).
A delegada estava em estágio probatório de três anos na Academia de Polícia quando as suspeitas vieram à tona. De acordo com o secretário da Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, não havia qualquer apontamento anterior contra ela. "Nossa aluna que passou aí no concurso de delegada, e não tinha nenhum apontamento contra ela [...] cortamos da própria carne, mas é o exemplo que estamos dando", declarou o secretário.
Operação prende também o namorado, apontado como chefe do tráfico
A operação que prendeu Layla também capturou seu namorado, Jardel Neto Pereira da Cruz, conhecido como Dedel. Ele é apontado por autoridades da Região Norte como integrante do PCC e um dos chefes do tráfico de armas e drogas em Roraima. O casal foi encontrado em uma pensão onde moravam na capital paulista.
A Justiça decretou a prisão temporária de 30 dias para ambos. Eles são investigados pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro. As investigações do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) apontam que Layla e o companheiro teriam adquirido uma padaria em Itaquera, Zona Leste de São Paulo, com dinheiro de origem ilícita. Para ocultar a propriedade, usaram o nome de um "laranja".
Além dos mandados de prisão, foram cumpridos sete mandados de busca e apreensão em São Paulo e em Marabá (PA). Um dos locais vasculhados foi a Academia da Polícia Civil, no Butantã, onde Layla mantinha um armário.
Infiltração em carreiras públicas e reação do Estado
O procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio Costa, comentou o caso e alertou para a tática do crime organizado. "Além da economia formal, o crime organizado tem também se infiltrado em carreiras públicas e estruturas de Estado. Mas em São Paulo, graças aos setores de inteligência, isso tem sido coibido", afirmou.
Os promotores suspeitam que, ao assumir o cargo de delegada, Layla poderia utilizar seu acesso a inquéritos e bancos de dados com informações restritas para favorecer os interesses da facção. A relação dela com o PCC, segundo o MP, só foi descoberta após a nomeação para o cargo.
A reportagem tentou localizar a defesa de Layla Lima Ayub para obter um posicionamento, mas não obteve retorno até o momento da publicação desta matéria.