Traficantes da Lapa submetem dependentes químicos a sessões de tortura em vídeo chocante
Uma operação conjunta das forças de segurança do Rio de Janeiro, batizada de Operação Colmeia, desvendou nesta terça-feira (16) uma rede criminosa do Comando Vermelho (CV) que atuava com extrema violência na região da Lapa. As investigações, que resultaram na prisão de 14 pessoas, apontam que os traficantes não apenas exploravam a venda de drogas, mas também torturavam dependentes químicos que frequentavam as bocas de fumo locais.
Vídeo obtido pela polícia mostra brutalidade contra usuários
O RJ1 teve acesso exclusivo a um material gravado pelos próprios criminosos, onde é possível ver vítimas sendo amarradas com fita e submetidas a agressões. "Identificamos uma sessão de tortura com dependentes químicos e o sujeito apanhando, os traficantes amarrando e determinando se matariam ou não matariam aquela vítima", relatou o delegado Uriel Alcântara Machado, da Polinter. O inquérito teve início na 5ª DP (Mem de Sá), que descobriu outras formas de dominação do bairro pela facção.
Extorsão sistemática atinge comerciantes da Escadaria Selarón
Wilton Carlos Rabello Quintanilha, conhecido como Abelha, um dos líderes da quadrilha e apontado como controlador das bocas de fumo da Lapa, impôs no ano passado uma "taxa" diária aos aproximadamente 50 ambulantes que trabalham nas ruas Teotônio Regadas e Joaquim Silva, no entorno da movimentada Escadaria Selarón. Os comerciantes eram obrigados a pagar até R$ 130 por dia, com transferências identificadas em nome do traficante Endrew Silva Lima, o Di Mulher. Estima-se que o CV tenha lucrado cerca de R$ 200 mil apenas com esse esquema de extorsão.
Invasão de imóveis e logística sofisticada do tráfico
A polícia descobriu que Abelha e Anderson Venâncio Nobre de Souza, o Piu ou Português (já encarcerado), são os responsáveis pelos pontos de venda de drogas na Lapa. O maior deles fica a apenas 200 metros dos Arcos da Lapa. Os criminosos invadiam casarões abandonados, onde se formavam filas de usuários, e chegavam a anunciar entorpecentes na rua como em um "feirão". As drogas, embaladas no Fallet/Fogueteiro, eram distribuídas por táxis, mototáxis e "mulas", geralmente mulheres. Desde 2023, o tráfico vem alterando a localização das bocas de fumo após uma série de prisões.
Investigações detalhadas e símbolos da facção
As apurações começaram em outubro de 2024 na 5ª DP, que em novembro indiciou 25 traficantes. O caso foi encaminhado ao Gaeco, resultando na denúncia de 30 pessoas, todas agora réus na Justiça. A delegacia identificou que a venda de drogas na Lapa é chefiada por Abelha, com Piu atuando como gerente operacional. Durante buscas no Fallet/Fogueteiro, a polícia encontrou a casa de Piu, ainda em obras, com academia, cozinha integrada, terraço, piscina e churrasqueira com vista para a comunidade.
Os subordinados se referem a Abelha e Piu com as expressões "Tropa do Mel" e "Tropa do Português". Nas redes sociais, emojis de abelha, mel e a bandeira de Portugal são usados como referência, desenhos também encontrados na Lapa. A Polícia Civil destacou que 22 dos 28 procurados nesta terça-feira não tinham antecedentes criminais, incluindo os "gerentes de carga" responsáveis pela logística do tráfico.
Homenagem criminosa em muro da Selarón
Há pelo menos cinco anos, um muro em frente à Escadaria Selarón exibe uma pintura em "homenagem" a Pablo Carlos Rodrigues Quintanilha, o PB, filho de Abelha morto em confronto com a polícia em 2019. O mural foi refeito há cerca de dois anos, quando o muro foi caiado e o retrato redesenhado, simbolizando a presença duradoura da facção na região.



