Traficante do PCC condenado a 126 anos foge após decisão judicial irregular
Um dos maiores traficantes do Brasil, Gerson Palermo, condenado a 126 anos de prisão e apontado como chefe do Primeiro Comando da Capital (PCC), quebrou sua tornozeleira eletrônica e fugiu. O criminoso, que cumpria pena no presídio de segurança máxima de Campo Grande por tráfico internacional de drogas e pelo sequestro de um avião em 2000, foi solto durante a pandemia de covid-19 em 2020 por decisão judicial.
Ligação com desembargador de Mato Grosso do Sul
A prisão domiciliar concedida para Palermo foi autorizada pelo desembargador do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), Divoncir Schreiner Maran. O magistrado justificou a decisão alegando problemas de saúde do traficante, mas o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) verificou que não havia laudo médico que comprovasse a condição.
O caso foi analisado em um Processo Administrativo Disciplinar (PAD), onde o relator, conselheiro João Paulo Schoucair, afirmou que a decisão ultrapassou os limites da independência judicial. O CNJ também apontou irregularidades na tramitação do habeas corpus, com indícios de que o conteúdo do pedido já era conhecido antes da distribuição oficial do processo.
Irregularidades no processo
Outro ponto citado foi o tempo de análise: o habeas corpus, com cerca de 208 páginas, foi decidido em aproximadamente 40 minutos. Para o relator, o prazo demonstra falta de cautela. "Trata-se de decisão flagrantemente inadequada, configurando grave violação aos deveres funcionais", afirmou Schoucair.
Durante o julgamento, também foram citados indícios de que servidores teriam assinado decisões em nome do desembargador, prática que pode configurar delegação irregular da função. Além disso, investigações da Polícia Federal (PF) apontaram movimentações financeiras consideradas incompatíveis com a renda declarada do magistrado.
Punição do desembargador
Ao concluir o voto, o relator afirmou que os fatos demonstram violação aos deveres de imparcialidade, prudência e decoro da magistratura. Com isso, o CNJ puniu o desembargador com aposentadoria compulsória. A decisão foi unânime e ocorreu na última terça-feira (10).
Quem é Gerson Palermo
O nome de Palermo aparece em investigações de grande impacto contra o crime organizado. Ele foi apontado como liderança do PCC, facção criminosa com atuação dentro e fora dos presídios. Sua trajetória criminal reúne dois episódios de grande repercussão:
- Sequestro de avião comercial: Em agosto de 2000, Palermo participou do sequestro de um Boeing 727 da empresa Vasp. A aeronave foi obrigada a pousar em Porecatu, no Paraná, onde a quadrilha roubou nove malotes do Banco do Brasil com cerca de R$ 5,5 milhões. Pelo crime, foi condenado a 66 anos e 9 meses de prisão.
- Tráfico internacional de drogas: Em março de 2017, a Polícia Federal deflagrou a Operação All In para desmontar um esquema de tráfico internacional. Palermo foi apontado como um dos líderes da organização, que transportava cocaína da Bolívia até Corumbá (MS) e depois para outros estados. A operação apreendeu 810 quilos de cocaína e resultou em condenação de mais 59 anos de prisão.
Somadas, as penas de Palermo chegam a quase 126 anos. Após as condenações, ele foi preso e encaminhado ao presídio federal de segurança máxima de Campo Grande, onde cumpria pena em regime fechado até ser solto em 2020 e posteriormente fugir.



