Tenente-coronel preso por feminicídio é recebido com abraço no Presídio Militar Romão Gomes
O tenente-coronel Geraldo Neto está detido no Presídio Militar Romão Gomes, localizado na Zona Norte de São Paulo, desde quarta-feira (18). Sua chegada marca a entrada do mais recente detento em um complexo que historicamente abrigou presos que marcaram a história criminal do Brasil, incluindo figuras notórias como os então policiais militares Mizael Bispo, Cabo Bruno e Rambo.
Acusação de feminicídio e versão do oficial
Neto é acusado de assassinar a própria esposa, a soldado Gisele Alves, após disparar um tiro na cabeça dela dentro do apartamento do casal no Brás, no Centro da capital paulista, em 18 de fevereiro. Segundo o Ministério Público, a vítima desejava se separar, mas o marido não aceitava o fim do relacionamento. O oficial, no entanto, nega os crimes e alega que a mulher cometeu suicídio após ele pedir o divórcio.
O Romão Gomes é a única unidade prisional criada em 1957 exclusivamente para abrigar agentes da Polícia Militar acusados de crimes militares. Como Neto ainda é tenente-coronel da corporação e foi acusado de matar uma soldado, ele foi enviado para essa instalação.
Recepção cordial e falta de respostas da PM
Um vídeo obtido pela TV Globo mostra o oficial sendo recebido com abraços de outro policial militar durante sua chegada ao presídio. A Polícia Militar ainda não se pronunciou oficialmente sobre se essa cordialidade é uma prática comum na recepção de novos presos. O g1 entrou em contato com a corporação na sexta-feira (20) para obter informações sobre a estrutura do presídio, o número de policiais detidos, os crimes cometidos, os níveis prisionais existentes e a rotina do tenente-coronel recém-chegado. Até a última atualização desta reportagem, a Polícia Militar não havia respondido aos questionamentos.
Histórico de presos emblemáticos no Romão Gomes
Uma reportagem do Fantástico em 2010 revelou que o homicídio foi o crime que mais levou policiais militares ao Romão Gomes. Ao longo dos anos, a unidade abrigou detentos emblemáticos:
- Mizael Bispo: Ex-advogado e soldado da PM aposentado, acusado de matar a ex-namorada Mércia Nakashima em 2010 por não aceitar o fim do relacionamento. Ele sempre negou o crime e foi condenado a mais de 20 anos de prisão em 2013. Após progressão de regime, foi para o aberto em 2023.
- Cabo Bruno: Cabo da PM Florisvaldo de Oliveira, acusado de comandar o 'esquadrão da morte', um grupo criminoso de milicianos que executava suspeitos entre 1970 e 1980. Foi condenado a mais de 100 anos de prisão, cumpriu pena no Romão, onde fugiu três vezes, e foi assassinado após sua libertação em 2012.
- Rambo: Apelido de Otávio Lourenço Gambra, flagrado em 1997 executando e agredindo moradores durante blitze na Favela Naval em Diadema. Foi condenado a 47 anos de prisão e cumpriu parte da pena no Romão antes de progredir para o regime aberto em 2006.
Estrutura e rotina no presídio militar
Em 2013, o g1 visitou o Romão Gomes e publicou uma reportagem detalhando a rotina no local. A direção do presídio organiza os internos em quatro estágios identificados por cores:
- Vermelho (ingresso/adaptação): Fase mais rígida, com presos permanecendo até 22 horas por dia em cela, com cerca de 2 horas de banho de sol. A progressão depende de bom comportamento.
- Amarelo: Regras mais brandas, permitindo frequência em áreas coletivas sob supervisão e participação em atividades monitoradas.
- Verde: Acesso ampliado a espaços coletivos, com possibilidade de usar quadras esportivas e cumprir trabalhos internos.
- Azul (regime semiaberto): Permite pátios diários, atividades laborais e educacionais, com alojamentos mais abertos.
Em tese, o tenente-coronel Geraldo Neto está no primeiro estágio, o vermelho, onde deve cumprir regras internas rigorosas.
Primeiro oficial preso por feminicídio desde 2015
O tenente-coronel Geraldo Neto é o primeiro oficial da Polícia Militar do estado de São Paulo preso por feminicídio desde a criação da lei em 2015. A Justiça decretou sua prisão preventiva, e ele responde por feminicídio e fraude processual, acusado de manipular a cena do crime para simular suicídio.
Laudos periciais e evidências, como mensagens extraídas de seu celular, indicam um padrão de violência doméstica, com controle financeiro, imposição sexual e tentativas de coagir a vítima. Vídeos das câmeras corporais dos PMs que atenderam a ocorrência também contradizem a versão de suicídio apresentada por Neto. Se condenado, a Justiça pode fixar uma indenização mínima de R$ 100 mil à família da vítima.



