Tenente-coronel da PM é preso por feminicídio da esposa, soldado Gisele, em São Paulo
Tenente-coronel preso por feminicídio da esposa, soldado da PM

Tenente-coronel da Polícia Militar é preso preventivamente por feminicídio da esposa

O tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Neto, de 53 anos, foi encaminhado na tarde desta quarta-feira (18) ao Presídio Militar Romão Gomes, na Zona Norte de São Paulo, onde ficará preso preventivamente. Ele é suspeito de matar a esposa, a soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos, com um tiro na cabeça no apartamento do casal, localizado no Centro da capital paulista.

Prisão e encaminhamento do oficial

Geraldo Neto foi preso pela Corregedoria da Polícia Militar em São José dos Campos, interior do estado, por volta das 8h17 desta quarta-feira. A prisão ocorreu após a Justiça Militar decretar sua prisão preventiva na terça-feira (17). Antes de ser levado ao presídio militar, o tenente-coronel passou pelo Hospital da Polícia Militar e pelo 8º Distrito Policial, onde foi interrogado e submetido a exames de corpo de delito.

A Corregedoria da PM solicitou a prisão do coronel com base na investigação da Polícia Civil, que um dia antes o indiciou pelos crimes de feminicídio – homicídio contra mulher por questões de gênero – e fraude processual, por ter adulterado a cena do crime. Inicialmente, Geraldo alegava que a esposa havia se suicidado após uma discussão, mas essa versão foi descartada após a Polícia Civil iniciar investigação como morte suspeita e laudos periciais indicarem o contrário.

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Reação da defesa e decisão da Justiça Militar

Por meio de nota, a defesa do oficial, representada pelo advogado Eugênio Malavasi, reagiu à prisão alegando que a Justiça Militar seria incompetente para analisar, processar e julgar o caso, especialmente para decretar medidas cautelares. O criminalista anunciou que vai suscitar conflito de competência com a Justiça comum.

O Tribunal de Justiça Militar (TJM), também por nota, informou que a prisão preventiva foi decretada com base na garantia da ordem pública, na conveniência da instrução criminal e na necessidade de preservação da hierarquia e disciplina militares. O magistrado destacou o risco de interferência nas investigações, inclusive pela possibilidade de influência sobre testemunhas, além da gravidade concreta dos fatos apurados.

A decisão também autorizou a apreensão de aparelhos celulares, a quebra de sigilo de dados eletrônicos e o compartilhamento de provas com a Polícia Civil, que conduz investigação paralela. O juiz militar determinou ainda que o investigado deverá ser submetido a audiência de custódia, conforme previsto na legislação vigente.

Laudos periciais apontam feminicídio e detalhes cruciais

A decisão das autoridades em pedir a prisão de Geraldo Neto ocorreu após a Polícia Técnico-Científica anexar ao inquérito laudos relacionados à morte de Gisele. Indícios contidos em dois dos 24 laudos foram determinantes:

  • Trajetória da bala que atingiu a cabeça da vítima, indicando que o disparo foi dado de baixo para cima e com o cano encostado na cabeça;
  • Profundidade dos ferimentos encontrados, com marcas de dedos no pescoço, sugerindo que Gisele desmaiou antes de ser baleada.

Resultados de exames como o necroscópico, da exumação do corpo e o toxicológico foram cruciais para a delegacia concluir que Geraldo matou Gisele por ciúmes e possessividade. O toxicológico não encontrou resquícios de álcool ou drogas, descartando a possibilidade de ela ter bebido ou estar dopada. O residuográfico não detectou pólvora nas mãos de Gisele nem nas de Geraldo, reforçando a tese de homicídio.

Inconsistências na versão do tenente-coronel

Outros pontos que chamaram a atenção das investigações incluem:

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  1. O fato de o coronel ter telefonado para a PM para pedir socorro apenas 29 minutos após uma vizinha escutar um tiro;
  2. Geraldo havia dito que tinha tomado banho antes de a mulher atirar, mas quando socorristas chegaram ao imóvel o encontraram com o corpo seco;
  3. Somente após ter ligado para um desembargador amigo, que foi à residência, é que Geraldo foi se banhar, desobedecendo orientação de policiais militares no local;
  4. Exames indicaram a presença de sangue de Gisele no box do banheiro e em outros cômodos do apartamento, detectados com o uso de luminol;
  5. Após a perícia, três policiais militares mulheres foram até o local limpar o imóvel, o que levou a Corregedoria da PM a investigar o coronel também por abuso de autoridade.

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que o Inquérito Policial Militar (IPM) será concluído nos próximos dias, enquanto as investigações prosseguem para o completo esclarecimento dos fatos. O caso continua sob análise tanto da Justiça Militar quanto da Justiça comum, com possíveis desdobramentos jurídicos sobre a competência para julgar o tenente-coronel.