Suzane von Richthofen será inventariante única da herança do tio: entenda a decisão judicial
A Justiça de São Paulo decidiu, nesta semana, que Suzane von Richthofen, condenada por mandar matar os pais em 2002, será a única inventariante do espólio de mais de R$ 5 milhões deixados pelo tio, Miguel Abdalla Netto. A decisão, da juíza Vanessa Vaitekunas Zapater, da 1ª Vara da Família e Sucessões, baseia-se em três pontos centrais: as regras do direito sucessório, a falta de interesse do outro possível herdeiro e a ausência de comprovação de união estável por parte de uma outra interessada.
Direito sucessório e falta de interesse de outro herdeiro
Pela lei de sucessão, a herança precisa ser administrada por um parente vivo. Como Miguel morreu solteiro, sem filhos, sem irmãos e sem testamento, a legislação prevê que os sobrinhos assumam o inventário. Andreas von Richthofen, irmão de Suzane e também sobrinho do médico, não se manifestou no processo, deixando apenas Suzane como interessada.
"Os documentos indicam a existência de somente um outro herdeiro, o sobrinho A.V.R., que não se habilitou nos autos até o momento. Neste quadro, impõe-se a nomeação da sobrinha habilitada ao cargo de inventariante", escreveu a juíza. Ela também reforçou que o histórico criminal de Suzane não interfere nesse tipo de processo: "O histórico criminal da herdeira não tem relevância jurídica nestes autos. Considerada a falta de manifestação do outro herdeiro, ela é a única pessoa apta ao múnus."
Sem comprovação de união estável
A magistrada também descartou, por ora, a possibilidade de Carmem Silvia Gonzalez Magnani, prima do médico que tenta comprovar união estável com ele, ser nomeada inventariante. Segundo ela, a prima não comprovou união estável com Miguel dentro deste processo — a discussão ocorre em outra ação judicial ainda sem sentença.
A juíza destacou divergências sobre o período alegado de relacionamento e lembrou que o próprio médico sempre negou que mantivesse vida conjugal com Carmem. Além disso, ressaltou que, mesmo sendo prima, Carmem é parente colateral de quarto grau e não herda antes dos sobrinhos, que são terceiro grau, conforme o artigo 1.840 do Código Civil.
O que Suzane pode — e não pode — fazer como inventariante
Ser inventariante é exercer uma função prevista em lei: administrar e preservar os bens de quem morreu até que a Justiça finalize a partilha. Na prática, Suzane passa a gerenciar os imóveis, contas e o carro do tio, sem poder vender, transferir ou usufruir de nada. Ela não se torna automaticamente herdeira, mas pode pleitear esse direito no processo. Enquanto isso, deverá prestar contas à Justiça de todos os atos praticados com o patrimônio.
Defesa da prima vai recorrer
A defesa de Carmem afirmou que irá recorrer, alegando que a decisão saiu antes do fim do prazo — que vai até 10 de fevereiro — para a apresentação de documentos que, segundo ela, comprovariam a união estável. A advogada de Andreas informou anteriormente que nem ela nem o cliente comentariam o caso.
Carmem e Suzane tinham relação conflituosa com Miguel. A prima diz ter sido companheira do médico, o que ele negou repetidamente. Suzane, por sua vez, participou do assassinato da irmã dele, Marísia, e do marido dela, Manfred, em 2002. Miguel chegou a ser tutor de Andreas após o crime, mas os dois romperam. O médico também havia acionado a Justiça para impedir Suzane de receber a herança dos pais — em 2015, ela foi declarada indigna, e os R$ 10 milhões ficaram apenas com Andreas.
Acusação de retirada de bens
Nesta semana, Carmem registrou boletim de ocorrência acusando Suzane de retirar, sem autorização judicial, um carro, uma máquina de lavar, um sofá e uma cadeira da residência de Miguel. Documentos e dinheiro também teriam desaparecido. A Polícia Civil apura se houve invasão e furto.
A morte do médico ainda está sob investigação — peritos trabalham com a hipótese de infarto, mas o caso segue classificado como suspeito. Carmem conseguiu liberar o corpo e realizar o sepultamento no interior paulista. Suzane tentou fazer o mesmo na delegacia, mas chegou depois e não foi autorizada.
PL pode atingir Suzane
Paralelamente, tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei (PL) apresentado pelo deputado federal Fernando Marangoni (União Brasil‑SP). A proposta altera o artigo 1.814 do Código Civil para impedir que herdeiros condenados por crimes dolosos contra parentes de até terceiro grau — como tios e sobrinhos — recebam herança. Se aprovado, o texto pode atingir diretamente Suzane na disputa pelo patrimônio deixado pelo tio.
O caso Richthofen: relembre
Há 23 anos, o engenheiro Manfred von Richthofen, de 49 anos, e a psiquiatra Marísia, de 50, foram assassinados dentro de casa, no Campo Belo. A polícia descobriu que Suzane havia mandado o então namorado, Daniel Cravinhos, e o irmão dele, Cristian, matarem o casal com barras de ferro. Os três tentaram simular latrocínio, mas confessaram e foram presos.
Suzane e Daniel foram condenados a 39 anos, e Cristian, a 38 anos. Suzane deixou a prisão em 2023, vive hoje em Bragança Paulista e adotou o nome Suzane Louise Magnani Muniz após se casar com o médico Felipe Zecchini Muniz, com quem tem um filho. Daniel saiu da prisão em 2018 e trabalha com customização de motos. Cristian foi solto em 2025 e também atua com o irmão.



