Polícia Militar do Rio falha em fornecer imagens de câmeras corporais em 40% dos pedidos
A Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro não atendeu a aproximadamente 40% das solicitações de acesso às imagens de câmeras corporais feitas pela Defensoria Pública no ano passado. Dos 2,5 mil pedidos formais realizados pelo órgão, apenas 1,5 mil foram respondidos positivamente, deixando uma lacuna significativa na transparência das operações policiais.
Casos de perda de vídeos e equipamentos descarregados
Em pelo menos 337 casos, que representam 13,4% do total de solicitações, a corporação alegou que os vídeos haviam sido perdidos. Situação ainda mais grave ocorreu no caso da médica Andréa Marins Dias, de 61 anos, morta durante uma suposta perseguição em Cascadura, Zona Norte do Rio. As câmeras corporais dos três policiais militares envolvidos estavam descarregadas e não registraram a ocorrência.
"Eu acho que é um número preocupante porque são 300 casos, 300 vidas que estão sendo julgadas num processo criminal no qual merecem algum esclarecimento, e se a gente tem o equipamento é para ele ser utilizado", afirmou o defensor público Pedro Paulo Gouvêa de Souza, destacando a importância dos registros para a justiça.
Histórico da implementação das câmeras corporais
A obrigatoriedade do uso de câmeras corporais pelos policiais no estado foi estabelecida por lei em junho de 2021, após a operação na favela do Jacarezinho que resultou em 28 mortes. A implementação efetiva começou em maio de 2022, por determinação do Supremo Tribunal Federal, que exigiu que toda ação policial no Rio de Janeiro fosse gravada. O Batalhão de Operações Especiais (Bope) só adotou os equipamentos em 2024.
Atualmente, mais de 13 mil câmeras corporais são utilizadas por policiais militares em patrulhamento no estado. A PM afirma manter critérios rígidos de utilização e que investiga internamente o caso envolvendo a médica Andréa Marins.
Importância das imagens para processos judiciais
As imagens das câmeras corporais têm se mostrado decisivas em diversos casos. Em novembro de 2024, registraram a ação em que o motorista de aplicativo Bruno Patrocínio foi baleado por policiais, revelando que os agentes estavam perdidos durante uma perseguição. As filmagens foram exibidas no RJ1 e levaram ao afastamento dos PMs quase um ano após o ocorrido.
No início de março, as gravações também foram fundamentais para que o Ministério Público do Rio de Janeiro denunciasse 10 policiais militares por invadirem residências durante megaoperação no Complexo do Alemão, em outubro do ano passado. Um vídeo mostrou um PM usando ferramenta para abrir portas sem chave, enquanto outro furtou celular de moradora.
Fiscalização e punições por mau uso
A corregedoria da Polícia Militar investigou mais de 5,4 mil casos de mau uso de câmeras corporais entre janeiro de 2024 e setembro de 2025. No mesmo período, 882 policiais foram punidos administrativamente por uso inadequado dos equipamentos ou por flagrante de abuso durante abordagens.
"É necessário um ajuste do ponto de vista do comportamento dos profissionais, e para isso é necessário que as autoridades façam essas fiscalizações, prevejam como vai ser o melhor funcionamento no momento atual", avaliou o professor do departamento de Segurança Pública da UFF, Lenin Pires.
Detalhes do caso da médica Andréa Marins
A médica Andréa Marins Dias, cirurgiã oncológica especializada em endometriose com quase 30 anos de experiência, foi morta no domingo (15) em Cascadura. Ela havia acabado de sair da casa dos pais quando foi atingida por tiros durante suposta perseguição policial.
Testemunhas gravaram imagens que mostram um carro branco com marcas de disparos no para-brisa. Em um vídeo, um policial dá ordens por cerca de um minuto: "Desce do carro. Desce ou vai morrer". Sem resposta, ele bate com o fuzil na janela e repete a ordem. Segundo a investigação, a médica já estava morta nesse momento.
O Instituto Fogo Cruzado informou que Cascadura foi o bairro da Região Metropolitana com mais registros de tiroteios em 2025, com 126 ocorrências. Em 2026, até o momento, já foram contabilizados 18 casos.
Posicionamento oficial da Polícia Militar
Em coletiva realizada na quarta-feira (18), o secretário de Polícia Militar, Marcelo de Menezes, afirmou: "Primeiro eu quero lamentar, dizer que temos protocolos rígidos de atuação das câmeras. Todo e qualquer desvio de conduta será apurado, as apurações estão em fase ainda inicial. A corregedoria vem acompanhando e desenvolvendo uma apuração interna. Traremos a verdade para toda a população".
Em nota oficial, a PM confirmou que as baterias das câmeras estavam descarregadas no momento da ocorrência e que os policiais envolvidos foram afastados das ruas. A corporação ressaltou que existem normas que determinam que os agentes devem retornar à unidade ao identificar falhas nos equipamentos para substituição.
