Operação mira grupo por tentar desviar quase R$ 900 milhões da herança da UNIP
A Justiça de São Paulo decretou a prisão temporária de nove investigados suspeitos de integrar um esquema criminoso que teria tentado desviar quase R$ 900 milhões do espólio do empresário João Carlos Di Genio, fundador do grupo educacional UNIP/Objetivo. A operação para tentar prendê-los está sendo realizada nesta terça-feira (31) pelo Ministério Público (MP) e pela Polícia Civil.
Entre os alvos está o também empresário Luiz Teixeira da Silva Junior, apontado como um dos principais nomes do esquema ilegal. Ele já havia sido investigado anteriormente pelas autoridades por suspeita de falsificar um laudo médico sobre uso de drogas para atingir o então candidato à Prefeitura de São Paulo Guilherme Boulos (PSOL) nas eleições de 2024.
Papel central de Luiz Teixeira no esquema
Segundo o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado de São Paulo (Gaeco) do MP e o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) da polícia, Luiz Teixeira é sócio e administrador da Colonizadora Planalto Paulista e controla 95% da empresa. Para os promotores e investigadores, ele teve um papel central na tentativa de fraude de R$ 845 milhões contra o Unip/Objetivo.
A acusação diz que o empresário assumiu compromissos financeiros e jurídicos para dar aparência de legalidade a uma negociação considerada falsa, para justificar na Justiça o acesso à parte da herança. Além disso, o nome de Luiz Teixeira aparece em outras ilegalidades:
- Caso do laudo contra Boulos (2024): ele é acusado de falsificar a assinatura de um médico em um documento divulgado pelo influenciador Pablo Marçal, que atribuía falsamente ao adversário o uso de drogas. A fraude foi confirmada por perícias oficiais.
- Outros processos por falsificação: ele responde a ações por uso de assinaturas falsas em documentos, incluindo registros ligados a empresas e até documentos acadêmicos, como diploma e ata de formatura em medicina.
- Investigação sobre desvio na Saúde em Cajamar: o nome dele também já apareceu em apurações sobre suspeitas de irregularidades com recursos públicos na área da saúde na Grande São Paulo.
Como funcionava o esquema criminoso
De acordo com o MP e a polícia, o grupo atuava de forma organizada, com divisão de tarefas para dar aparência de legalidade à fraude. A investigação aponta que os suspeitos criaram uma estrutura baseada em:
- Documentos falsos
- Contratos simulados
- Assinaturas adulteradas
- Decisões arbitrais fabricadas
Um dos exemplos citados é um contrato de compra e venda de imóveis com assinatura falsa de Di Genio. O documento teria sido datado de três meses antes da morte do empresário, em fevereiro de 2022. Para reforçar a fraude, o grupo teria usado uma entidade chamada Fonamsp (Fórum de Negócios e Finanças Internacionais e Nacionais por Arbitragem e Mediação Ltda), apontada como uma câmara arbitral fictícia.
Uma câmara arbitral fictícia é uma entidade que se apresenta como um tribunal, mas não tem autorização legal para funcionar. Esse tipo de estrutura pode ser usado para simular decisões judiciais e cobrar dívidas inexistentes, pressionando vítimas a pagar valores indevidos. Segundo a investigação, esse "tribunal" teria produzido uma decisão baseada em testemunhas inexistentes e documentos falsificados, criando uma dívida sem que a família do empresário soubesse.
Quem são os investigados e medidas judiciais
O Ministério Público detalha o papel de cada um dos nove alvos, incluindo Luiz Teixeira da Silva Junior como principal articulador, Anani Cândido de Lara na montagem de documentos, Wagner Rossi Silva no transporte de documentos falsos, e outros envolvidos em diferentes etapas do esquema.
Além das prisões temporárias, a Justiça autorizou 15 mandados de busca e apreensão em endereços na capital paulista e nas cidades de Guarulhos, Barueri e Jandira. Também foi determinado o bloqueio de bens e valores dos investigados, com o objetivo de interromper as atividades suspeitas, preservar provas e tentar recuperar prejuízos.
A operação é mais um desdobramento das disputas envolvendo a herança estimada em cerca de R$ 845 milhões deixada pelo fundador do grupo UNIP/Objetivo — um caso que já vinha sendo alvo de decisões judiciais por tentativas consideradas abusivas. Até a última atualização desta reportagem, nenhum dos procurados havia sido preso. Eles são investigados por crimes como estelionato, falsificação de documentos e fraude processual.



