MP de Roraima pede investigação de conduta de policial militar em acidente com vítima fatal
O Ministério Público de Roraima solicitou a abertura de inquérito policial militar e procedimento administrativo para apurar a conduta do cabo Fernando Cordeiro Ledo, da Polícia Militar, que atendeu ocorrência de acidente com morte sem acionar perícia técnica.
Detalhes do acidente que vitimou técnica em enfermagem
Patricia Melo da Silva, técnica em enfermagem de 53 anos, faleceu após ter sua motocicleta atingida por uma caminhonete dirigida pela estudante Amanda Kathryn Monteiro de Souza, de 19 anos, filha de um capitão da PM. O acidente ocorreu na madrugada do dia 5 de fevereiro, na Avenida Ville Roy, em Boa Vista.
O exame de corpo de delito da vítima, constante no inquérito policial, revelou quadro gravíssimo com múltiplas fraturas nas costelas, fratura craniana, edema cerebral e lesões extensas na cabeça. A causa oficial da morte foi registrada como traumatismo cranioencefálico grave associado a trauma torácico.
Falhas no atendimento policial geram questionamentos
O cabo Fernando Cordeiro Ledo, responsável pelo atendimento da ocorrência, avaliou inicialmente que se tratava apenas de "lesão corporal" e não considerou necessário acionar a perícia técnica para o local. Ele também não realizou teste de bafômetro na motorista Amanda Kathryn e a liberou ainda no local do acidente.
Testemunhas ouvidas pela Polícia Civil relataram que a estudante teria usado a influência do pai, capitão da PM, para receber tratamento diferenciado. Segundo os depoimentos, Amanda afirmou aos policiais que era "filha de capitão da polícia", o que teria alterado completamente a postura dos agentes no local.
Uma testemunha descreveu: "Um policial olhou para a cara do outro e pouco depois um virou de costas e passou a mexer no telefone celular".Contradições nas versões e alteração da cena
Os relatos das testemunhas indicam que Amanda teria feito uma videochamada para uma tia no local, confessando que havia bebido, mas que "tinha sido cedo". Apesar dessa informação, o teste de bafômetro não foi solicitado pelos policiais.
Mais grave ainda: testemunhas afirmaram que foi o próprio cabo Fernando quem ordenou que uma terceira pessoa desse marcha a ré na caminhonete para desenganchá-la da motocicleta, alterando significativamente a posição dos veículos e, consequentemente, a cena do acidente.
No boletim de ocorrência, a guarnição registrou que a perícia não foi acionada porque os veículos já haviam sido removidos do local. Contudo, a investigação da Polícia Civil constatou através de vídeos e fotos que "a motocicleta ficou presa no para-choque da S10 envolvida".
Condição crítica e tentativas de reanimação
O prontuário médico do Hospital Geral de Roraima detalha a gravidade do estado de Patricia. Ela deu entrada na sala de reanimação às 00h46 do dia 5 de fevereiro, precisando ser intubada imediatamente. Poucos minutos depois, seu quadro se agravou com paradas cardíacas sucessivas.
A equipe médica realizou reanimação com medicamentos e massagem cardíaca por aproximadamente 50 minutos, mas a morte foi confirmada às 01h37, cerca de duas horas após o acidente.
Defesas e posicionamentos institucionais
A defesa de Amanda Kathryn informou em nota que a estudante "permaneceu todo tempo no local, visando prestar socorro à vítima, aguardando as determinações dos agentes de segurança" e que "ela mesma se prontificou em fazer o exame [de bafômetro]".
O cabo Fernando, por sua vez, orientou a reportagem a procurar a assessoria da PM, que afirmou que a equipe responsável realizou os levantamentos necessários para o registro do fato ainda no local. A corporação ressaltou que a Corregedoria instaurará procedimento para apurar a conduta dos agentes.
Em seu depoimento, o cabo admitiu que tirou fotos do cenário do acidente "pois entendeu que mesmo sem perícia poderiam ajudar na compreensão da dinâmica dos fatos", mas reconheceu que hoje entende que deveria ter acionado a perícia.
Contexto familiar e investigações paralelas
Amanda Kathryn é filha do capitão da PM Helton John Silva de Souza, que está sendo investigado por envolvimento no assassinato de um casal de agricultores em disputa de terras no município do Cantá, ocorrido em abril de 2025.
Nesta terça-feira (24), o governo de Roraima instaurou um Conselho de Justificação para apurar a conduta ética e moral do capitão Helton John relacionada a esse caso paralelo.
A Polícia Civil informou que o inquérito policial do acidente fatal "encontra-se em fase final de conclusão" e que "a ausência de realização de perícia no local do acidente também está sendo analisada no âmbito da investigação". Amanda Kathryn optou por permanecer em silêncio ao prestar depoimento à Polícia Civil.



