Polícia Civil aprofunda investigação sobre morte de policial militar em São Paulo
Quase um mês após o falecimento da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, a Polícia Civil continua a apurar minuciosamente as circunstâncias que levaram à sua morte. O inquérito, que inicialmente foi registrado como suicídio, agora é tratado como morte suspeita e aguarda laudos complementares da Polícia Técnico-Científica para esclarecer a dinâmica do disparo ocorrido em 18 de fevereiro.
Dois cenários em análise: suicídio ou crime violento
O caso aconteceu no apartamento onde a policial militar residia com seu marido, o tenente-coronel Geraldo Neto, localizado no bairro do Brás, na região central da capital paulista. Diante de contradições e novos elementos que surgiram, a investigação passou a trabalhar com duas hipóteses principais: a de que Gisele tenha tirado a própria vida ou a de que tenha sido vítima de um assassinato, possivelmente caracterizado como feminicídio.
Segundo o relato do coronel, que defende a versão do suicídio, o disparo teria ocorrido após uma discussão conjugal, no momento em que ele estava tomando banho. Ele afirmou ter ouvido um barulho, saído do banheiro e encontrado Gisele ferida na cabeça, segurando uma arma. Imediatamente, acionou o serviço de socorro. A soldado tinha 32 anos, enquanto o oficial possui 53 anos.
Reconstituição do crime e depoimentos recentes
Após o trágico episódio, o tenente-coronel afastou-se das suas atividades profissionais e participou de uma reconstituição realizada por peritos do Instituto de Criminalística no dia 23 de fevereiro, dentro do apartamento do casal. A defesa de Geraldo requereu um novo depoimento no 8º Distrito Policial, situado no Brás, que será realizado após a juntada dos laudos pendentes, incluindo o complementar do Instituto Médico Legal.
Na última sexta-feira, dia 13, o ex-marido de Gisele prestou depoimento no mesmo distrito policial. De acordo com representantes da família da vítima, ele descreveu a soldado como uma pessoa que não manifestava tendências suicidas e informou que a filha do casal, que residia com a mãe, ficará sob sua guarda e dos avós maternos.
Mudança de classificação e indícios preocupantes
Devido a questionamentos da família e ao surgimento de novas evidências, a Polícia Civil reclassificou o caso como morte suspeita. A Justiça, por sua vez, remeteu a investigação à Vara do Júri, por vislumbrar indícios de crime doloso contra a vida, categoria que abrange o feminicídio. Familiares apresentaram relatos indicando que Gisele vivia uma relação tóxica, com o tenente-coronel a ameaçando, perseguindo e proibindo-a de ter liberdade, inclusive para frequentar a academia sozinha.
Laudos já concluídos reforçaram as dúvidas sobre a versão inicial de suicídio. O necroscópico apontou um disparo encostado no lado direito da cabeça e lesões no rosto e pescoço compatíveis com pressão digital e marcas de unhas, achados confirmados após exumação. O residuográfico não detectou pólvora nas mãos de Gisele nem nas de Geraldo, e o laudo de trajetória indica um tiro de baixo para cima.
Profissionais que atenderam a ocorrência estranharam o fato da arma permanecer na mão da vítima, situação considerada incomum em casos de suicídio com arma de fogo. Outros pontos sob análise incluem inconsistências no relato temporal do coronel e condutas adotadas no local logo após o disparo. Registros do condomínio mostram a chegada de um desembargador após ligação do oficial; em seguida, o coronel tomou banho.
Exumação e laudos pendentes
Por decisão judicial, o corpo de Gisele foi exumado para a realização de novos exames. Ainda estão pendentes no inquérito o laudo toxicológico e o laudo do local da morte, com registros fotográficos da posição do corpo. Peritos já indicaram a existência de marcas de sangue no banheiro, o que causa estranheza, pois a soldado foi encontrada em outro cômodo. Resta identificar a quem pertence esse sangue.
Paralelamente, a Polícia Militar instaurou um Inquérito Policial Militar após denúncias de ameaças, perseguição e instabilidade emocional na relação, atribuídas ao tenente-coronel. As investigações prosseguem ativamente, e novas diligências dependem da conclusão dos laudos pendentes, que devem trazer esclarecimentos definitivos sobre este caso complexo e sensível.



