Morte de PM em apartamento: laudos, câmeras e testemunha contradizem versão de suicídio
O caso da morte da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, ocorrida em fevereiro deste ano em um apartamento no Brás, região central de São Paulo, ganha novos contornos com revelações que contradizem a versão inicial de suicídio. Uma testemunha do condomínio afirmou à Polícia Civil que três policiais mulheres foram ao imóvel do casal horas após a ocorrência, por volta das 17h48 do mesmo dia, para realizar uma limpeza no local onde Gisele foi encontrada com um tiro na cabeça.
Limpeza suspeita e contradições no depoimento
Segundo o relato da testemunha, as agentes – identificadas como uma soldado e duas cabos – entraram no apartamento acompanhadas por uma funcionária do prédio. O disparo que vitimou a soldado teria acontecido por volta das 7h da manhã, levantando questões sobre a necessidade e o momento dessa limpeza. O marido de Gisele, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, havia informado à polícia que estava no banho quando ouviu um barulho, pensando ser uma porta batendo, e ao sair encontrou a esposa caída na sala.
Bombeiros questionam versão do tenente-coronel
No inquérito da Polícia Civil, depoimentos de socorristas que atenderam a ocorrência colocam em dúvida a narrativa apresentada pelo oficial. Um sargento do Corpo de Bombeiros com 15 anos de experiência relatou que, ao chegar ao apartamento, encontrou Geraldo de bermuda, sem camisa e completamente seco. O socorrista destacou que não havia pegadas molhadas no chão, indicando que o tenente-coronel não teria saído imediatamente do banho.
Um tenente da PM, cuja equipe foi a primeira a chegar ao local, reforçou essa observação, afirmando que nem Geraldo nem Gisele aparentavam estar molhados ou terem tomado banho antes do disparo. O chuveiro do banheiro do corredor estava ligado, mas não havia poças de água no piso.
Conduta emocional e ausência de desespero
Outro aspecto que chamou a atenção dos bombeiros foi o estado emocional do marido. O sargento afirmou não ter visto nenhum tipo de desespero ou choro por parte do tenente-coronel. Segundo outro socorrista, Geraldo "falava calmamente" ao telefone, questionava constantemente o atendimento prestado e insistia para que a vítima fosse retirada com pressa e levada ao hospital.
Os profissionais também notaram que o oficial não apresentava marcas de sangue no corpo ou nas roupas, o que sugeriria que ele não tentou prestar os primeiros socorros à esposa.
Ligação para desembargador e mudança de roupa
Entre os contatos feitos por Geraldo na manhã da ocorrência, uma ligação para o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), despertou suspeitas na família da policial. O magistrado chegou ao prédio às 9h07 e subiu para o apartamento com o tenente-coronel. Às 9h18, o desembargador reapareceu no corredor, e às 9h29, após 11 minutos, Geraldo surgiu com outra roupa.
O advogado da família, José Miguel da Silva Junior, questiona a presença do desembargador no local. "Ele vai ter que explicar por que estava lá. Pelo relato que temos, o desembargador foi a primeira pessoa acionada após o disparo", afirmou.
O que dizem as defesas
Em nota, a defesa do tenente-coronel Geraldo Neto declarou que ele não é investigado, suspeito ou indiciado no processo até o momento. Os advogados afirmam que o oficial tem colaborado com as autoridades desde o início e permanece à disposição para ajudar na elucidação dos fatos.
Já a defesa do desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan informou que ele foi chamado ao apartamento como amigo do tenente-coronel e que eventuais esclarecimentos serão prestados à polícia judiciária.
O caso, inicialmente registrado como suicídio, segue sob investigação da Polícia Civil e da Corregedoria da Polícia Militar. A Secretaria da Segurança Pública (SSP) foi procurada pelo g1 para se posicionar, mas ainda não respondeu.



