Médico de 90 anos é vítima de envenenamento por arsênio em Vitória, Espírito Santo
O arsênio, elemento químico presente na conservação de madeira, produção de ligas metálicas e herbicidas, voltou ao centro das atenções após ser identificado no envenenamento do cardiologista Victor Murad, de 90 anos, em Vitória, Espírito Santo. O médico alega que foi intoxicado lentamente pela sua própria secretária, Bruna Garcia, que também é investigada por desviar mais de R$ 500 mil de suas contas ao longo de 12 anos. Ela está presa, acusada de colocar arsênio na água de coco servida ao profissional para encobrir os crimes financeiros.
Substância sem cheiro, cor ou gosto facilita crimes
De acordo com a Polícia Científica, desde 2012 foram registrados seis casos positivos de intoxicação por arsênio no estado, com o último antes deste episódio ocorrendo em 2014. As investigações revelaram que Bruna Garcia comprou 100 gramas de óxido de arsênio, também conhecido como trióxido de arsênio, em uma loja de artigos para laboratórios no Centro de Vitória, utilizando o nome e CNPJ do marido na nota fiscal de R$ 49,50.
Wanderson Romão, pós-doutor em Ciências e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), explicou que o trióxido de arsênio é um pó branco sem cheiro, cor ou gosto, o que facilita seu uso criminoso. "Em casos de intoxicação menos graves, provoca vômitos violentos, diarreias e dores abdominais. Dependendo da quantidade, pode levar à morte ou causar intoxicação crônica em doses menores e repetidas", afirmou.
Lacunas na legislação e projetos de lei em tramitação
Em 2025, o Conselho Federal de Química (CFQ) destacou a necessidade de um controle mais rigoroso para substâncias arsenicais, após um caso de envenenamento fatal em São Paulo. No Brasil, o Exército regula a venda de compostos como tricloreto de arsênio e hidreto de arsênio, mas há brechas na regulamentação do óxido de arsênio.
Dois projetos de lei buscam corrigir essa falha: o PL nº 1381/2025, do deputado Gilson Daniel (PODE-ES), e o PL nº 985/2025, do deputado Lula da Fonte (PP-PE). Eles propõem a proibição da venda a pessoas físicas e um controle mais estrito sobre transporte, armazenamento e identificação de compradores. Enquanto isso, empresas químicas devem cumprir exigências do Inventário Nacional de Substâncias Químicas.
Detalhes do caso: desvios e sintomas graves
Bruna Garcia trabalhava na clínica de Murad desde 2013, filha de uma antiga funcionária, e detinha controle total sobre as finanças do médico, que não usava ferramentas digitais como PIX. "Confiava cegamente nela, foi esse meu mal. Ela encanta qualquer um. É uma serpente", desabafou Murad. A investigação aponta que ela desviou R$ 544 mil, usando o dinheiro para viagens luxuosas, enquanto o médico via seu patrimônio diminuir sem explicação.
O promotor Rodrigo Monteiro relatou que os saques eram frequentes, com valores de até R$ 10 mil. Para o Ministério Público, o envenenamento começou quando os desvios estavam prestes a ser descobertos, como uma cortina de fumaça para afastar responsabilidades. Murad apresentou sintomas como dores intensas, vômitos com sangue, anemia profunda e agravamento da doença de Parkinson, levando ao fechamento de sua clínica após 30 anos.
Defesa nega acusações e caso avança para júri
Bruna Garcia está presa desde outubro e deve ser levada a júri popular por tentativa de homicídio qualificado. Seu advogado, James Gouveia, nega as acusações: "Ter um laudo que foi envenenado não comprova que a Bruna o envenenou. Pode ter sido outra pessoa ou acidental". Sobre os desvios, a defesa sustenta que todas as movimentações eram autorizadas por Murad. O marido da suspeita foi preso preventivamente, mas solto por falta de indícios.
Este caso ressalta os riscos do mau uso de substâncias químicas e a urgência de melhorias na legislação para proteger a saúde pública.



