Médico de 90 anos acusa ex-secretária de envenenamento com arsênio e desvio de dinheiro
Médico acusa ex-secretária de envenenamento com arsênio

Cardiologista de 90 anos sofre envenenamento lento por arsênio e fraude financeira

O renomado cardiologista Victor Murad, com 90 anos de idade, enfrenta uma situação dramática após acusar sua ex-secretária, Bruna Garcia, de envenená-lo lentamente com arsênio durante aproximadamente 15 meses. O médico, que mantinha uma relação de confiança com a funcionária, descreve sintomas graves que incluem vômitos com sangue, anemia severa, fraqueza extrema e agravamento de seus sintomas de Parkinson.

Relação de confiança quebrada e desvios financeiros

Bruna Garcia trabalhava na clínica do médico desde 2013, sendo responsável por receber pagamentos de consultas, realizar transferências bancárias e administrar todas as despesas. Essa posição de confiança permitiu que ela movimentasse as contas do cardiologista sem qualquer supervisão direta. "Confiava cegamente nela, foi esse meu mal. Acreditava nela, assim, ela encanta qualquer um. É uma serpente", desabafou o médico durante entrevista.

A suspeita inicial surgiu quando Murad e sua esposa perceberam uma falta inexplicável de recursos financeiros, mesmo mantendo sua rotina normal de trabalho. Ao consultar o banco, descobriram gastos além do habitual, que posteriormente foram atribuídos à secretária através de uma perícia detalhada.

Métodos sofisticados de desvio e comprovação do envenenamento

A investigação policial identificou um padrão sistemático de desvios financeiros:

  • Transferências frequentes via Pix em valores que variavam entre R$ 3 mil e R$ 10 mil
  • Uso não autorizado de cartões de crédito e débito
  • Contratação de empréstimos bancários sem o conhecimento do médico
  • Saques realizados múltiplas vezes no mesmo dia

Os recursos desviados teriam sido utilizados principalmente para financiar viagens luxuosas, hospedagens em hotéis de alto padrão e compras pessoais da suspeita. Paralelamente aos problemas financeiros, a saúde do médico começou a deteriorar-se progressivamente, com sintomas que incluíam dores estomacais intensas e episódios recorrentes de vômito com sangue.

Descoberta do arsênio e confirmação toxicológica

A suspeita de envenenamento ganhou força substancial quando uma funcionária encontrou um frasco contendo arsênio em um depósito da clínica, pouco após a demissão de Bruna Garcia. O médico foi imediatamente encaminhado para exames periciais especializados.

A confirmação definitiva do envenenamento veio através de uma análise toxicológica realizada com fios de cabelo do cardiologista. Especialistas explicam que este método permite detectar intoxicações antigas, pois o arsênio permanece registrado na estrutura capilar por meses após a exposição. Os resultados dos exames indicaram contaminação prolongada, compatível com ingestão repetida da substância tóxica por pelo menos um ano e três meses - período que coincide com a intensificação dos sintomas relatados pelo médico.

Investigação policial e situação atual

A polícia conseguiu rastrear a compra do veneno até o marido da suspeita, mas as investigações posteriores descartaram seu envolvimento, concluindo que ele não tinha conhecimento da aquisição. Bruna Garcia foi presa em outubro do ano passado e atualmente responde por tentativa de homicídio qualificado e fraude financeira. O Ministério Público já manifestou a intenção de levá-la a júri popular.

O advogado de defesa, James Gouveia, nega veementemente todas as acusações contra sua cliente. "Ter um laudo que foi envenenado não comprova que a Bruna o envenenou. Pode ter sido outra pessoa, pode ter sido acidental", argumentou. Sobre as movimentações financeiras, a defesa sustenta que todas as transações eram de conhecimento prévio e devidamente autorizadas pelo médico.

Após o fechamento da clínica que manteve por mais de três décadas, Victor Murad segue em processo de recuperação domiciliar, ainda enfrentando sequelas físicas do período de intoxicação. "Eu nunca fiz nada contra ela. Sempre a tratei como se fosse da família", lamentou o cardiologista. "E ela tentando me matar." O caso continua sob investigação das autoridades policiais e do Ministério Público, que buscam elucidar todos os detalhes deste crime complexo que envolve tanto aspectos de saúde quanto financeiros.