O final dos anos 80 e início dos anos 90 marcou uma transformação no crime organizado brasileiro: as facções criminosas trocaram as pistolas pelos fuzis. Essa mudança é tema do segundo episódio da série documental "Territórios - Sob o Domínio do Crime", disponível no Globoplay, que analisa a expansão dessas organizações.
Influência do cinema
De acordo com o delegado Vinicius Domingos, chefe da Coordenadoria de Fiscalização de Armas e Explosivos (CFAE) do Rio de Janeiro, o cinema teve papel crucial nessa transição. "Os filmes americanos de Hollywood mostravam o fuzil AR-15 como a arma do mocinho, a mais desejada", afirmou. "Por isso, essa arma se tornou o bibelô dos criminosos".
Depoimentos de criminosos e especialistas
Luiz Fernando da Costa, conhecido como Fernandinho Beira-Mar, um dos maiores traficantes do Brasil, declarou que o fuzil não foi criado para enfrentar a polícia, mas sim para combater inimigos. "Ele não é para combater a polícia, é para combater os inimigos, mas acaba sendo usado também contra a polícia", disse.
Já José Júnior, fundador do AfroReggae, organização de impacto social em comunidades, contesta a justificativa das facções de que a arma serve para defesa. "O cara tem um fuzil na mão alegando que tem que se defender, mas defensor de quem? Do opositor, do inimigo, da polícia? É o que eles alegam. Mas essas armas crescem cada vez mais e são usadas até para assaltar trabalhadores em pontos de ônibus. Essa justificativa já não existe mais", criticou.
Impacto na atuação policial
O delegado Domingos explicou que a adoção dos fuzis pelas facções alterou o armamento das forças de segurança. O Exército passou a doar armas mais pesadas para a Polícia Militar, e a Polícia Civil começou a utilizar o armamento apreendido com integrantes das facções.
Série documental do Globoplay
A série "Territórios - Sob o Domínio do Crime", com seis episódios, produzida pelo jornalismo da Globo, investiga como as organizações criminosas passaram a influenciar a vida social, econômica e política do país, por meio do tráfico de drogas, garimpo ilegal e outras atividades. O objetivo é compreender o extenso domínio e a impunidade dessas organizações, bem como as diferentes estratégias de combate, desde operações policiais até ações políticas.
O projeto envolveu mais de 29 jornalistas e viagens dentro e fora do Brasil, ouvindo especialistas em segurança pública, agentes do Estado, jornalistas, vítimas e membros das facções.



