Ex-funcionário da Prefeitura de Niterói é preso por suspeita de cafetinagem de mulheres trans
Um ex-funcionário da Prefeitura de Niterói foi preso nesta terça-feira (10) por agentes da 76ª DP (Niterói) sob suspeita de cafetinagem de mulheres trans. João Vitor Nascimento da Cruz, de 44 anos e conhecido como Vitinho, foi alvo da Operação Ronda Sumbria, que investiga crimes de exploração sexual e extorsão na região.
Exoneração e vínculo com a prefeitura
João Vitor era funcionário da Prefeitura de Niterói na Administração Regional da Ponta da Areia até o início deste ano. Nomeado em 10 de fevereiro de 2025, ele foi exonerado no dia 23 de janeiro, segundo a prefeitura, por decisão administrativa. A exoneração ocorreu logo após a denúncia de que ele atuava cobrando das mulheres trans que se prostituíam no Centro de Niterói há aproximadamente dois anos.
Investigações e relatos das vítimas
As investigações tiveram início no fim de janeiro deste ano, após relatos de vítimas que atuavam na prostituição em condições de extrema vulnerabilidade. Uma das mulheres contou que o local já era um ponto de prostituição e que há cerca de dois anos o homem chegou na região cobrando pedágio e se dizendo dono da rua.
Quem não pagasse a taxa semanal de R$ 120 era ameaçada, coagida ou agredida. Houve quem fosse expulsa e proibida de se prostituir no local. A polícia afirma ainda que o valor costumava chegar a R$ 150 em algumas ocasiões.
Diversas vezes ele alegava ter envolvimento com a delegacia local da cidade e extorquia um valor maior das meninas, chegando até a R$ 500. Ele as intimidava com arma de fogo, vídeos em frente à delegacia e áudios ameaçadores, relata uma das vítimas.
Violência e intimidação
As investigações também apontaram que o criminoso realizava programas sexuais com as vítimas e era frequentemente visto circulando armado em seu veículo, realizando rondas para intimidá-las e manter o controle da área. Uma das vítimas, uma adolescente de 15 anos, relatou ter sido enforcada por João Vitor.
Em um áudio atribuído pelas testemunhas a ele, o homem diz: Eu só quero que você pague a rua, tá todo mundo pagando, você tem que se virar e pagar também. Se tá ruim para você, amanhã você não desce mais. Depois, ele admite as agressões de forma homofóbica: Bicha igual a você eu tô fora, porque vocês adoram arrumar problema. Quando eu agarro vocês pelo pescoço, falam que eu sou covarde.
Cúmplice e indiciamentos
A polícia aponta uma comparsa de João Vitor na trama, identificada como Hilary Oliveira Batista, de 45 anos, conhecida como Patrícia. João Vitor Nascimento da Cruz foi indiciado pelos crimes de extorsão, rufianismo qualificado e submissão de criança ou adolescente à prostituição ou à exploração sexual.
Somadas, as penas previstas ultrapassam 28 anos de reclusão. O artigo 230 do Código Penal brasileiro estabelece que tirar proveito da prostituição alheia é crime passível de prisão de 1 a 4 anos e multa, com aumento da pena se houver violência ou grave ameaça.
Acompanhamento político e apoio às vítimas
O caso é acompanhado pela vereadora de Niterói Benny Briolly, que encaminhou a denúncia para o Ministério Público e oficiou a prefeitura para que tomasse conhecimento da situação. O processo de denúncia é sempre muito doloroso, porque você tem que lidar com vítimas de tamanha crueldade, afirma a parlamentar.
Ela destacou a necessidade de apoio psicológico e financeiro para as mulheres afetadas, muitas das quais podem precisar deixar de trabalhar temporariamente. É preciso que haja uma humanização. Essas meninas não estão ali porque querem, mas porque querem sobreviver em um sistema que as exclui do sistema de trabalho e as força, historicamente, a buscar a prostituição como meio de sobrevivência, aponta Briolly.
A vereadora reafirmou seu compromisso político e institucional, declarando: Enquanto eu estiver eleita, nenhum corpo trans será violado, explorado ou silenciado. Nosso mandato é instrumento de defesa, resistência e transformação. Direitos humanos não se negociam.
A prefeitura de Niterói, quando procurada, reiterou que o ex-funcionário foi exonerado por decisão administrativa do cargo de encarregado na Administração Regional da Ponta da Areia, após sua nomeação em fevereiro de 2025.



