Novas denúncias de assédio sexual e moral emergem contra tenente-coronel preso por feminicídio
Uma policial militar apresentou uma denúncia formal ao Ministério Público contra o tenente-coronel Geraldo Neto, atualmente preso preventivamente por ser suspeito de matar sua esposa, a soldado Gisele Alves Santana, com um tiro na cabeça no bairro do Brás, região central de São Paulo. A militar acusa o oficial de assédio sexual e moral, detalhando uma série de investidas físicas indesejadas e abusos de poder durante o período em que trabalharam no mesmo batalhão.
Relato detalhado de assédio e intimidação
A policial, que solicitou anonimato por medo de retaliação, trabalhou junto com o tenente-coronel entre julho e novembro do ano passado. Em seu depoimento, ela descreve uma tentativa de beijo forçado na sede da companhia, que foi impedida por sua própria reação. Além disso, Geraldo Neto fazia convites frequentes para que ela fosse até sua sala, sugerindo que poderiam fechar a porta para manter privacidade, e insistia em encontros fora do horário de serviço para tomar café ou bebidas, sempre com segundas intenções claras.
"Conhecendo o perfil desse homem e tendo sido vítima dele posso afirmar que ele é capaz de tudo", enfatizou a militar em sua denúncia. Ela também relatou que, em uma ocasião, ao levá-la à Assembleia Legislativa (Alesp), o oficial ordenou que ela retirasse sua câmera pessoal e a deixasse na viatura, em um claro exercício de controle.
Manobras para evitar assédio e transferência punitiva
Para escapar dos assédios constantes, a policial solicitou transferência para o turno noturno. No entanto, o tenente-coronel, percebendo a manobra, passou a procurá-la durante a noite e tentou oferecer "favores" para criar uma dívida de gratidão, o que ela recusou firmemente. Poucos dias após essa recusa final, ela foi transferida involuntariamente para um batalhão distante de sua residência, ato que ela interpreta como uma vingança direta por não ceder às investidas.
A vítima admitiu que tinha receio de formalizar a denúncia a superiores por medo de represálias, mas, após tomar conhecimento das notícias sobre a morte da esposa do tenente-coronel, buscou orientação com uma procuradora de Justiça e sentiu-se encorajada a apresentar a queixa oficialmente.
Contexto do caso de feminicídio
Geraldo Neto foi preso preventivamente na última quarta-feira (18), quando se tornou réu na Justiça pelos crimes de feminicídio e fraude processual. Segundo o Ministério Público, laudos periciais, reprodução simulada e análise de mensagens indicam que o tenente-coronel segurou a cabeça de Gisele e atirou contra ela, descartando completamente a hipótese de suicídio. A acusação sustenta que ele manipulou a cena do crime para simular que a soldado teria tirado a própria vida.
Gravações das câmeras corporais de policiais militares mostram um conflito hierárquico no dia do crime, em 18 de fevereiro. Um cabo tentava preservar o local onde Gisele foi baleada, enquanto o tenente-coronel, marido da vítima, insistia em entrar no banheiro, tomar banho e circular pelo apartamento, condutas que alertaram os investigadores e enfraqueceram a versão de suicídio.
Depoimento do tenente-coronel e alegações de defesa
Em interrogatório à Polícia Civil, Geraldo Neto afirmou que "nunca foi bandido" e que sempre "salvou vidas", defendendo sua honra e trajetória de 35 anos na Polícia Militar. Ele explicou que sua primeira reação após o ocorrido foi abrir a porta do apartamento para os policiais que chegavam, buscando afastar suspeitas de adulteração da cena.
O tenente-coronel também relatou que a dependência financeira de Gisele era o principal obstáculo para o divórcio. Segundo ele, a renda da esposa estava comprometida por empréstimos consignados e bancários, restando menos de R$ 1.000 por mês após descontos. Para viabilizar a rotina familiar, ele transferia voluntariamente entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil mensais para a conta de Gisele, além de arcar com despesas domésticas que somavam cerca de R$ 10 mil.
Geraldo afirmou ter buscado alternativas para garantir a autonomia financeira da esposa, conseguindo uma vaga na assessoria da Polícia Militar no Tribunal de Justiça, com adicional de R$ 5 mil mensais. O plano era que Gisele assumisse o posto em 2 de março, após o carnaval, o que permitiria que ela vivesse de forma independente com a filha.
Próximos passos processuais
Como o feminicídio é classificado como crime doloso contra a vida, a tendência é que o caso seja julgado pela Justiça comum, possivelmente pelo Tribunal do Júri. O Ministério Público pediu que, em caso de condenação, seja fixada indenização mínima de R$ 100 mil aos familiares da vítima.
A defesa do tenente-coronel nega o crime, questiona a competência da Justiça Militar e afirma que o oficial colaborou com as investigações. Em nota, o escritório de advocacia que representa Geraldo Neto reafirma sua confiança na atuação das autoridades e ressalta que o cliente aguarda a completa elucidação dos fatos.
Este é o primeiro caso desde 2015 de um oficial da Polícia Militar de São Paulo preso por feminicídio, ocorrendo em meio às mudanças recentes na legislação que, desde 2024, tipificam o feminicídio como crime autônomo com penas de 20 a 40 anos de prisão.



