Corumbá se torna principal rota de 'mulas humanas' para tráfico de cocaína no Brasil
Corumbá: rota principal de 'mulas humanas' para tráfico de cocaína

Corumbá se consolida como epicentro do tráfico de cocaína via 'mulas humanas' no Brasil

Corumbá, cidade localizada em Mato Grosso do Sul, emergiu como uma das principais rotas para um esquema criminoso de tráfico internacional de cocaína, utilizando 'mulas humanas' para transportar a droga. Segundo a Polícia Federal (PF) e a Receita Federal, o método envolve o recrutamento de indivíduos em situação de vulnerabilidade no país vizinho, a Bolívia, que ingerem cápsulas de cocaína para burlar a fiscalização na fronteira. O destino final da droga é, predominantemente, a cidade de São Paulo, de onde pode ser exportada para outros países.

Logística e volume alarmante do tráfico

Diariamente, entre 8 e 10 ônibus cruzam a fronteira entre Bolívia e Brasil em Corumbá. Estimativas da Receita Federal indicam que cada veículo pode transportar até 8 pessoas com cápsulas de cocaína dentro do corpo, totalizando uma média de 100 cápsulas por indivíduo, o que equivale a aproximadamente 1,1 quilo de pasta base de cocaína. Em dias de pico, esse número pode chegar a 15 ônibus, representando até 75 quilos da droga saindo da região.

O delegado da Polícia Federal, Estevão Baesso de Oliveira, explica que o esquemo começa na Bolívia, onde 'coiotes' selecionam as 'mulas', oferecem pagamento e preparam a droga para ingestão. A viagem é realizada em ônibus, vans ou carros até o Brasil, com o objetivo de transformar o corpo humano em um 'contêiner' para driblar a fiscalização. Oliveira destaca que Corumbá não é um foco de abastecimento local, mas sim uma rota estratégica de passagem para o tráfico internacional, com foco em identificar as lideranças criminosas por trás da operação.

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Riscos severos à saúde e métodos de fiscalização

Especialistas em segurança e saúde alertam que a prática do transporte por ingestão impõe riscos mortais aos envolvidos. O médico toxicologista Sandro Trindade Benites adverte que o rompimento de uma cápsula no estômago pode levar a uma overdose aguda, com sintomas como batimentos cardíacos acima de 200 por minuto, convulsões, hipertermia e falência de múltiplos órgãos, frequentemente resultando em óbito. Mesmo em casos de sobrevivência, sequelas neurológicas, cardíacas e renais podem ser permanentes.

Para combater esse crime, as autoridades têm intensificado as ações de fiscalização. A inspetora da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Stéfanie Amaral, descreve que os flagrantes são baseados em:

  • Entrevistas durante abordagens, onde inconsistências nas respostas e nervosismo levantam suspeitas.
  • Observação da linguagem corporal, incluindo comportamento e postura dos suspeitos.
  • Sinais característicos, como forte odor de látex na respiração e uso de preservativos íntimos para armazenar as cápsulas.

Quando há suspeita, os indivíduos são encaminhados a unidades de saúde para exames de imagem, e, se confirmada a presença de drogas, são acompanhados por médicos até a eliminação ou retirada do material.

Exploração de vulnerabilidade e desafios no combate

O antropólogo Guilherme Passamani, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), ressalta que o crime não está associado a uma nacionalidade específica, mas sim a condições de vida precárias. Pessoas em situação de vulnerabilidade, muitas vezes em movimento pendular entre cidades, são aliciadas com a promessa de ganhos financeiros imediatos, ponderando que os riscos de morte ou prisão são menores que as vantagens oferecidas.

A auditora-fiscal da Receita Federal, Tatiane Laranjo Amadeu Suhogusoff, explica que o método de ingestão dificulta a fiscalização, pois a droga não é detectada em scanners de bagagem comuns, exigindo o uso de cães farejadores e exames de raio-X, recursos nem sempre disponíveis. Nos últimos anos, as ações têm sido aprimoradas com o compartilhamento de informações de inteligência e parcerias entre órgãos de segurança pública.

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Em 2025, a Polícia Federal apreendeu cerca de 8,42 toneladas de cocaína em Mato Grosso do Sul, e, apenas nos dois primeiros meses de 2026, mais de uma tonelada já foi interceptada. O delegado Estevão Baesso de Oliveira enfatiza que o foco das autoridades vai além das prisões em flagrante, buscando desarticular as redes criminosas que se beneficiam dessa logística, tornando a fronteira Brasil-Bolívia um dos pontos mais sensíveis do crime transnacional no país.