Chefe de centro espírita em Fortaleza é acusado de desviar milhões de idosos com supostas orientações espirituais
Chefe espírita acusado de desviar milhões de idosos em Fortaleza

Chefe de centro espírita em Fortaleza é acusado de desviar milhões de idosos com supostas orientações espirituais

A Delegacia de Proteção ao Idoso e à Pessoa com Deficiência indiciou um suspeito por estelionato e abuso, em um caso que envolve a suposta manipulação religiosa de um casal de idosos em Fortaleza. O acusado, identificado pelas iniciais F. G., é o chefe de um centro espírita e está sendo investigado por desviar milhões de reais dos sogros, que têm mais de 80 anos e são proprietários de uma empresa no mercado imobiliário, especialmente na região da Praia do Cumbuco, em Caucaia, um destino turístico conhecido nacional e internacionalmente.

Denúncia apresentada pelas filhas do casal

Conforme a denúncia apresentada à Polícia Civil por três das quatro filhas do casal, F. G., que é marido da quarta irmã, atuava como guru espiritual e presidente de um centro espírita frequentado pelos idosos. As filhas afirmam que ele usou de influência para fazer os pais transferirem milhões de reais a título de doações ou caridade, após supostas recomendações de espíritos incorporados por ele, incluindo personalidades mundialmente conhecidas como Napoleão Bonaparte, Princesa Isabel, Leonardo Da Vinci e Ayrton Senna.

Entre os episódios relatados está o desaparecimento de mais de R$ 5 milhões da previdência da mãe, ao longo de meses, em diversas transações diferentes, sem informações sobre a destinação do dinheiro. As filhas também acusam F. G. de ter atuado para afastá-las dos pais, que chegaram a dispensar duas delas da empresa familiar. Uma medida protetiva estabelecida pela Justiça impede F. G. de se aproximar dos sogros, mas ele mora em um apartamento acima do deles.

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Investigações e processo em sigilo

A Polícia Civil indiciou F. G. em agosto de 2025, e o caso seguiu para o Ministério Público do Ceará (MPCE), que solicitou mais investigações. Desde então, o processo não andou, e o MP destacou, por meio de nota, que está analisando novas informações encaminhadas pela polícia, dentro do prazo legal, com o processo em sigilo para preservar a identidade das vítimas.

Acusações de manipulação financeira e espiritual

F. G. é casado com a filha mais velha do casal e, ao longo dos anos, atuou como assessor financeiro e espiritual dos idosos. Testemunhas relataram que, quando o idoso precisava tomar decisões importantes na empresa, F. G. o levava ao centro espírita para receber aconselhamento de espíritos incorporados. O processo cita que F. G. não possuía renda fixa e que parte do dinheiro mensal que recebia vinha de comissões relacionadas a vendas da empresa, com base em suas orientações espirituais.

Segundo a denúncia, ele tinha acesso às contas bancárias da sogra por meio do aplicativo do banco no celular, além de possuir as senhas dos cartões de crédito. Em depoimento, a idosa disse que ele tinha acesso porque ela não sabia como mexer no aplicativo. Entre as transações apontadas como suspeitas estão uma doação de R$ 1,4 milhão para terceiros, uma transferência de R$ 70 mil para a conta da esposa de F. G., e outra de R$ 66 mil para a conta do centro espírita.

Vínculo familiar e mudanças de comportamento

O vínculo de F. G. com a família remonta a 1998, quando o idoso que viria a ser seu sogro foi pela primeira vez ao centro espiritual. Nos meses seguintes, F. G. passou a frequentar reuniões familiares, estabeleceu um namoro com a filha mais velha, e se casou em 2007, com comunhão total de bens, regime que, segundo testemunhas, teria sido estabelecido sem o conhecimento da família. As outras filhas afirmam que os problemas começaram por volta de 1999, cerca de um ano após F. G. começar a frequentar a família.

De acordo com as filhas, o pai passou a apresentar sintomas de Alzheimer em 2018, com diagnóstico confirmado nos anos seguintes. A esposa teria mantido o laudo para si e passou a administrar a empresa por conta própria, com F. G. como assistente financeiro. Durante a pandemia de Covid-19, F. G. teria ficado mais próximo da mãe, à medida que os sintomas de Alzheimer se intensificavam no sogro, que atualmente, com 90 anos, não consegue se comunicar nem realizar atividades diárias por conta própria.

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As maiores movimentações financeiras ocorreram após F. G. estabelecer proximidade com a sogra. As filhas relatam que a mãe passou a apresentar comportamento hostil em relação a elas nos últimos anos, acusando uma delas de tentar matá-la envenenada e registrando um Boletim de Ocorrência contra outra por desvio de dinheiro, processo ainda em tramitação. Em março de 2025, as filhas conseguiram uma medida protetiva, mas a investigação policial indica que F. G. mantinha contato com os idosos por meio dos celulares das funcionárias domésticas.

Envolvimento espiritual e depoimento do acusado

F. G. é o guru espiritual de pelo menos dois centros espíritas na Grande Fortaleza, voltados para o ritual do Santo Daime, nome pelo qual é conhecido o chá alucinógeno ayahuasca. Os dois templos foram construídos em terrenos doados pelos sogros, que frequentaram os espaços por mais de duas décadas e fizeram uso da ayahuasca por cerca de 20 anos. Testemunhas afirmam que F. G. alega ter incorporado espíritos de diversas personalidades famosas, como Pero Vaz de Caminha, Faraó Tutancamon e Cacique Cobra Coral.

Em depoimento à Polícia, F. G. disse que o sogro recebia mensagens de espíritos incorporados por ele e por outros médiuns do centro, todas de cunho positivo, incentivando à caridade. Ele negou que as mensagens espirituais tenham orientado os idosos a fazerem doações a ele ou familiares, e afirmou que passou a ajudar a sogra financeiramente após pedido dela. F. G. confirmou ter acesso aos aplicativos bancários da idosa, mas destacou que uma das filhas, que continua a trabalhar na empresa, também tem acesso às contas. Ele disse que sua fonte de renda atual vem de uma doação que o sogro fez, há cerca de 7 anos, para todas as filhas e seus esposos, a título de adiantamento da herança. A defesa de F. G. não foi localizada para comentar a denúncia.