Caso Gisele: provas contradizem versão apresentada por tenente-coronel preso por feminicídio
Um relatório detalhado da Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo revela que o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, realizou pelo menos oito ligações telefônicas antes de solicitar socorro para sua esposa, a soldado Gisele Alves Santana, encontrada com um tiro na cabeça no apartamento do casal no Brás, região central da capital paulista, em 18 de fevereiro deste ano. As informações, obtidas através da perícia no celular do oficial apreendido durante as investigações, contradizem frontalmente a versão inicial apresentada pelo militar, que afirmou tratar-se de um suicídio após discussão conjugal.
Sequência de ligações revela atraso no pedido de socorro
De acordo com o documento oficial, a primeira ligação ocorreu às 7h54min58s para o número de emergência 190, mas Geraldo Neto não aguardou o atendimento. Imediatamente após, tentou contato por duas vezes com um coronel, seu superior hierárquico, sem sucesso. Em seguida, realizou nova chamada ao 190, que foi atendida, mas durou apenas cinco segundos. Somente após conseguir falar com seu superior por aproximadamente um minuto, às 7h57min17s, o tenente-coronel efetuou uma nova ligação ao 190 para finalmente pedir socorro, com duração de 3 minutos e 12 segundos.
Minutos mais tarde, às 8h01min03s, Geraldo Neto telefonou para o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, com quem conversou por 25 segundos. Segundo o coronel Alex Asaka, comandante da Corregedoria da PM, o magistrado não interferiu na cena do crime, atuando apenas na condição de amigo do acusado. A cronologia completa das ligações inclui ainda uma chamada ao 193 às 8h05min38s, com duração de 1 minuto e 33 segundos.
Mensagens misóginas e contexto de violência psicológica
A análise do aparelho celular do tenente-coronel revelou uma série de mensagens misóginas que demonstravam claro controle sobre a esposa. Nas conversas extraídas, Gisele Santana relatava ser submetida a episódios constantes de humilhação, piadas degradantes e comportamento considerado "babaca" por parte do marido, inclusive no ambiente de trabalho da Polícia Militar, onde ele aparecia na seção da soldado e permanecia horas observando suas atividades.
Em um dos diálogos, a PM escreve: "Não dá para entender. Você pediu para eu não ir embora. Eu fico, e você continua igual, até pior, com seu tratamento. Falando coisas para me humilhar, para me provocar". Em outra mensagem, ela afirma: "Se você quer separar, vamos separar. Mas, se você continuar, vai ter que mudar seu comportamento estúpido, ignorante, intolerante e sem escrúpulos".
As investigações também encontraram declarações machistas do tenente-coronel, como: "Lugar de mulher é em casa, cuidando do marido. E não na rua, caçando assunto. Rua é lugar de mulher solteira à procura de macho". Para a Corregedoria, esses diálogos evidenciam uma "concepção de relacionamento baseada em submissão e hierarquia no âmbito doméstico", configurando indícios de violência psicológica reiterada.
Laudos técnicos descartam suicídio e apontam feminicídio
A prisão preventiva de Geraldo Neto, decretada na quarta-feira (18), ocorreu após a Polícia Técnico-Científica anexar ao inquérito laudos que descartaram definitivamente a hipótese de suicídio. Entre os 24 documentos periciais, dois se mostraram particularmente determinantes: a análise da trajetória da bala que atingiu a cabeça da vítima e a profundidade dos ferimentos encontrados.
O laudo necroscópico concluiu que Gisele apresentava marcas de dedos no pescoço e havia desmaiado antes de ser baleada e morta com um tiro na cabeça. A trajetória do disparo indicou que o tiro foi dado de baixo para cima, com o cano da arma encostado na cabeça. O exame toxicológico não encontrou resquícios de álcool ou drogas no organismo da soldado, eliminando a possibilidade de que estivesse sob influência de substâncias.
Outros elementos que chamaram a atenção dos investigadores incluem:
- O tenente-coronel telefonou para a PM pedindo socorro apenas 29 minutos após uma vizinha escutar um tiro;
- Geraldo afirmou ter tomado banho antes do suposto suicídio da esposa, mas quando os socorristas chegaram ao local o encontraram com o corpo seco;
- Exames com luminol detectaram a presença de sangue de Gisele no box do banheiro e em outros cômodos do apartamento;
- A perícia não encontrou resíduos de pólvora nas mãos da vítima nem nas do acusado.
Defesa alega violação de direitos e questiona competência
Por meio de nota, o escritório Malavasi Sociedade de Advogados, que representa Geraldo Neto, afirmou que "seguem sendo divulgadas informações e interpretações que alcançam aspectos de sua vida privada, muitas vezes por meio de conteúdos descontextualizados, ocasionando exposição indevida e repercussões que atingem sua honra e dignidade". A defesa também questionou a competência da Justiça Militar para analisar o caso, alegando que somente a Justiça comum teria jurisdição sobre os fatos.
Os advogados informaram que ajuizaram reclamação perante o Superior Tribunal de Justiça (STJ) contra o decreto de prisão oriundo da Justiça castrense e que estudam o manejo de habeas corpus quanto à decisão da 5ª Vara do Júri da Capital. A defesa mantém que seu cliente colaborou com as autoridades desde o início das investigações.
Prisão e indiciamento por feminicídio
Geraldo Neto foi preso preventivamente pela Corregedoria da Polícia Militar em São José dos Campos, interior do estado, na manhã de quarta-feira (18). Ele foi indiciado pelos crimes de feminicídio (homicídio contra mulher por questões de gênero) e fraude processual (por supostamente ter adulterado a cena do crime). A Corregedoria da PM pediu a prisão do oficial com base na investigação da Polícia Civil, que um dia antes havia formalizado o indiciamento.
O tenente-coronel, que havia pedido afastamento da corporação após a morte da esposa, também passou a ser investigado por abuso de autoridade após três policiais militares mulheres terem sido enviadas ao apartamento para realizar limpeza do local. O caso continua sob apuração das autoridades competentes, com novas diligências e perícias complementares em andamento.



