Tráfico de formigas-rainhas movimenta mercado negro internacional
Um grande carregamento de formigas vivas foi interceptado no Aeroporto Internacional Jomo Kenyatta, no Quênia, com destino à China, revelando uma rede de contrabando que explora a crescente moda de manter insetos como animais de estimação em formicários transparentes. As formigas gigantes africanas coletoras, conhecidas cientificamente como Messor cephalotes, tornaram-se alvo de colecionadores internacionais dispostos a pagar valores elevados por rainhas fecundadas.
Moda global impulsiona comércio clandestino
Durante a estação chuvosa no Quênia, enxames de formigas aladas deixam seus formigueiros na região de Gilgil, no Vale do Rift, criando a oportunidade perfeita para caçadores ilegais coletarem rainhas. Uma única rainha pode alcançar até £170 (cerca de R$ 1.185) no mercado negro, que opera principalmente através de plataformas online. Esses insetos são valorizados por sua capacidade de fundar colônias completas que podem durar décadas.
"No começo, eu nem sabia que era ilegal", confessou um ex-intermediário que preferiu manter anonimato. Ele descreveu como estrangeiros aguardavam em pousadas ou carros enquanto locais coletavam as formigas nos campos, utilizando pequenos tubos ou seringas fornecidas pelos compradores internacionais.
Operação policial revela dimensão do problema
No ano passado, uma operação policial em Naivasha resultou na apreensão de 5 mil rainhas de formigas gigantes coletoras, embaladas em tubos de ensaio com algodão úmido que permitiria sua sobrevivência por até dois meses durante o transporte. Os suspeitos - da Bélgica, Vietnã e Quênia - planejavam levar os insetos para Europa e Ásia.
Mais recentemente, um cidadão chinês identificado como mentor do esquema foi detido no mesmo aeroporto com outras 2 mil rainhas embaladas em tubos de ensaio. Os envolvidos em operações anteriores foram condenados por biopirataria e obrigados a pagar multas de US$ 7,7 mil (mais de R$ 40,4 mil) ou cumprir pena de 12 meses de prisão.
Impactos ambientais preocupam cientistas
Dino Martins, biólogo queniano especializado em entomologia, expressou preocupação com as consequências ecológicas desse comércio. "As formigas coletoras são tanto espécies-chave quanto engenheiras de ecossistemas", explicou Martins, destacando seu papel na dispersão de sementes e manutenção de ambientes campestres saudáveis.
Mukonyi Watai, cientista sênior do Instituto de Pesquisa e Treinamento de Vida Selvagem do Quênia, alertou que "a coleta insustentável - especialmente a remoção das rainhas - pode levar ao colapso das colônias, perturbando ecossistemas e ameaçando a biodiversidade".
Riscos de espécies invasoras
Pesquisadores chineses monitoraram mais de 58 mil colônias de formigas vendidas online durante seis meses e descobriram que mais de um quarto das espécies comercializadas não eram nativas da China. Zhengyang Wang, professor assistente da Universidade de Sichuan, advertiu que "se o volume de comércio de formigas invasoras continuar crescendo, é apenas uma questão de tempo até que algumas escapem de seus formicários".
Um estudo publicado na revista Biological Conservation alertou especificamente sobre os riscos da formiga gigante africana coletora, que poderia impactar a agricultura baseada em grãos no sudeste da China caso se estabelecesse como espécie invasora.
Falta de regulamentação internacional
Atualmente, nenhuma espécie de formiga está listada na Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Ameaçadas de Extinção (Cites), o que dificulta o monitoramento global desse comércio. Sérgio Henriques, pesquisador especializado no tema, afirmou que "sem tratados internacionais monitorando esses movimentos, a escala do comércio permanece amplamente invisível para formuladores de políticas".
No Quênia, é possível coletar formigas legalmente com permissões especiais que exigem acordos de repartição de benefícios com comunidades locais, mas até agora nenhuma solicitação foi formalizada junto ao Serviço de Vida Selvagem do país (KWS).
Oportunidade econômica versus conservação
Alguns analistas argumentam que o Quênia está perdendo uma oportunidade de gerar receita através do comércio regulamentado de formigas. O gabinete queniano aprovou no ano passado diretrizes para comercialização da economia da vida selvagem, incluindo formigas, visando "promover o uso sustentável de espécies selvagens para gerar empregos, riqueza e meios de subsistência comunitários", conforme explicou Watai.
Enquanto isso, autoridades do KWS buscam melhorar equipamentos de vigilância em aeroportos e fronteiras para combater o tráfico, considerado subnotificado. Martins estima que "apenas uma fração das formigas realmente comercializadas esteja sendo detectada", sugerindo que o problema possa ser muito maior do que as apreensões indicam.



