Polícia investiga possível erro médico em morte de mulher após procedimento para engravidar
A Polícia Civil de São Paulo investiga se houve erro médico na morte da terapeuta Gabriela Moura, de 31 anos, que faleceu após realizar um procedimento de retirada de óvulos em uma clínica particular de reprodução humana na Zona Sul da capital paulista. O marido da vítima, Samuel Moura, também médico, afirmou que houve falta de atenção e assistência durante o procedimento.
“Uma falta de atenção, uma falta de assistência, porque teoricamente quando você faz uma anestesia desse porte, tem que estar um profissional habilitado todo o tempo do lado da paciente”, lamentou Samuel Moura, de 35 anos, que acompanhou a esposa na clínica.
O caso
Gabriela Moura, que planejava a primeira gestação, sofreu uma parada cardiorrespiratória no dia 17 de fevereiro, durante o procedimento na Clínica Genics, em Indianópolis. Ela foi internada e teve morte encefálica sete dias depois, em 24 de fevereiro, no Hospital Sírio-Libanês.
Câmeras de segurança gravaram os momentos de desespero e tensão no socorro à terapeuta. O g1 SP e a TV Globo tiveram acesso às imagens do resgate, que mostram o marido buscando respostas, a equipe médica o consolando e os socorristas levando a paciente desacordada numa maca.
O 4º Distrito Policial (Consolação) investiga o caso como morte suspeita, apurando entre as hipóteses se ocorreu erro médico, reação à anestesia ou doença não detectada. A família afirma que Gabriela era saudável e atleta, tendo corrido a Maratona do Rio de Janeiro (21 km) recentemente.
Suspeita de demora na oxigenação
Samuel suspeita que a morte tenha sido causada pela demora do anestesista argentino Nestor Turner, de 72 anos, em perceber a parada cardíaca. Em depoimento, ele afirmou que ouviu estimativas de aproximadamente 15 minutos em que a esposa ficou sem oxigenação no cérebro, até retomar os batimentos após manobras de ressuscitação. Esse período causou dano cerebral irreversível.
O prontuário médico do hospital indica que a morte ocorreu possivelmente por “encefalopatia anóxica e hipertensão intracraniana”, ou seja, lesão cerebral grave por falta de oxigênio e aumento da pressão no crânio.
“Existe uma possibilidade de ter ocorrido um erro médico e isso cabe às autoridades esclarecer os fatos para que essa família enlutada tenha a sua tão buscada resposta”, aponta Yuri, advogado da família. “Não é razoável que uma jovem em plena saúde, em uma situação que não apresentava nenhuma comorbidade, entre em uma clínica para um procedimento simples e sai desta clínica sem vida”.
Depoimentos dos médicos
Em depoimento, o anestesista Nestor Turner afirmou que a paciente teve dificuldade respiratória e que tentou ventilar durante todo o procedimento, seguindo protocolos com uso de adrenalina, massagem cardíaca e intubação. Disse que os equipamentos estavam em pleno funcionamento e os alarmes foram acionados, mas sem indicação inicial de parada cardíaca.
A médica Aline Nogueira, responsável pela retirada dos óvulos, afirmou que o procedimento transcorreu normalmente, com duração de cerca de 10 minutos. Ela relatou que foi chamada pelo anestesista e encontrou a paciente com “coloração arroxeada” e sem pulso, iniciando as manobras de reanimação.
Outros casos e laudos
A morte de Gabriela ocorreu aproximadamente dois meses antes do falecimento da juíza Mariana Francisco Ferreira, que também passou pelo procedimento em uma clínica em Mogi das Cruzes e morreu em 6 de maio, dois dias após o exame. Ambos os casos são investigados como morte suspeita.
Os laudos da Polícia Técnico-Científica, que apontarão as causas das mortes, ainda não ficaram prontos. Samuel criticou a demora: “Demora de três meses para sair o laudo do IML. Por que está demorando tanto para sair esse laudo?”.
Notas oficiais
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que os médicos foram ouvidos e a autoridade policial aguarda o laudo necroscópico do IML. A Superintendência da Polícia Técnico-Científica informou que o exame toxicológico ficará pronto nos próximos dias.
O Hospital Sírio-Libanês declarou que a paciente foi transferida de outro serviço e que, em respeito à família e ao sigilo médico, não divulga informações clínicas sem autorização formal.
A Clínica Genics divulgou nota prestando esclarecimentos, afirmando que a fertilização in vitro é um procedimento seguro, com mortalidade estimada em menos de 1 caso por 100 mil ciclos. A clínica disse que a médica responsável acompanhou a paciente antes e durante o procedimento, considerando-a apta. Informou que a intercorrência respiratória foi identificada pelo anestesista, que usou todos os recursos para reversão do quadro, e que todos os protocolos foram adotados. A clínica colabora integralmente com as autoridades.
Repercussão
Formada em direito, Gabriela compartilhava nas redes sociais conteúdos sobre saúde, atividade física e qualidade de vida. Após sua morte, a família doou seus órgãos. O enterro foi no Piauí, onde o casal se conheceu há 13 anos. Samuel convive com o luto: “Ainda não consegui tirar a aliança…”.



